Remédios e paranoia: médicos explicam a noite em que Bolsonaro violou a tornozeleira

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Ton Molina/STF

Remédios e paranoia: médicos explicam a noite em que Bolsonaro violou a tornozeleira

Jair Bolsonaro relatou, durante audiência de custódia, alucinação supostamente causada por combinação de medicamentos

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Durante a audiência de custódia realizada no domingo (23), após a prisão por tentativa de violar a tornozeleira eletrônica, o ex-presidente Jair Bolsonaro relatou ter tentado abrir o dispositivo devido a um episódio de “paranoia”.

No mesmo dia, a equipe médica divulgou boletim descrevendo confusão mental e alucinações, atribuídas à combinação de pregabalina, clorpromazina e gabapentina.

Bolsonaro afirmou acreditar estar sendo monitorado por algum tipo de escuta instalada na tornozeleira e contou ter tentado retirar a tampa com um ferro de solda. Segundo seu relato, iniciou a ação no fim da noite e interrompeu por volta de meia-noite.

Os médicos explicaram que a Pregabalina pode interagir de forma significativa com medicamentos utilizados de maneira contínua pelo ex-presidente.

Entre os efeitos adversos estão alterações do estado mental, como confusão, desorientação, sonolência, perda de equilíbrio, transtornos cognitivos e alucinações.

Especialistas consultados pelo R7 analisaram se a combinação desses fármacos poderia provocar episódios de psicose. O psiquiatra Fábio Leite esclarece que Pregabalina e Gabapentina pertencem à classe dos gabapentinoides, prescritos para dor crônica.

Sobre a Clorpromazina, ele observa tratar-se de um antipsicótico usado para prevenir mudanças de comportamento.

“Ela pode causar sonolência ou hipotensão, especialmente em doses elevadas, mas não provoca psicose nem altera radicalmente o nível de consciência”, afirma.

De forma didática, Leite detalha que pacientes medicados com Pregabalina podem apresentar tontura, fraqueza e preferência por permanecer sentados ou deitados, preservando, contudo, consciência, memória e entendimento da situação — sem tendência a comportamentos extremos com amnésia posterior.

A médica Gabriela Passos acrescenta: “Pregabalina e Gabapentina são amplamente utilizadas no tratamento de dores crônicas, como neuropatia periférica, fibromialgia e dor neuropática diabética.

Já a Clorpromazina é indicada para esquizofrenia, agitação psicomotora, soluços intratáveis e, em casos específicos, náuseas e vômitos”.

Passos explica que alucinações são efeitos adversos raros, geralmente observados em idosos, pacientes com comprometimento renal ou hepático ou indivíduos com histórico psiquiátrico. Pregabalina e Gabapentina podem causar sonolência e tontura; a Clorpromazina produz sedação intensa.

Cenários específicos

Gabriela Passos observa ainda que a combinação dos três medicamentos não é habitual e costuma ser utilizada apenas em cenários específicos.

“Quando usadas juntas, pode surgir efeito somatório no sistema nervoso central, aumentando o risco de delirium — um quadro súbito de confusão mental no qual alucinações podem ocorrer. Durante o delirium, a memória do episódio costuma ser parcial ou ausente devido à dificuldade do cérebro em registrar informações”, aponta.

Segundo Passos, a percepção do episódio varia entre pacientes.

“Muitos não identificam imediatamente que passaram por delirium, justamente pela confusão e pela amnésia associadas. O reconhecimento costuma ocorrer após a estabilização clínica, quando revisam o ocorrido com médicos ou familiares”, determina.

Suspensão e acompanhamento

A Pregabalina foi suspensa de imediato. No momento da elaboração do relatório, Bolsonaro não apresentava sintomas residuais. A equipe ajustou a medicação e retomou orientações anteriores. O acompanhamento seguirá de forma periódica para monitoramento da evolução clínica.

O ex-presidente possui múltiplas comorbidades e faz uso contínuo de diversos fármacos em razão de cirurgias e internações desde 2018. Também apresentou pneumonia por broncoaspiração e sofre de soluços refratários, condição relacionada à prescrição de parte dessas medicações.

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