O triplo homicídio ocorreu na noite de 4 de fevereiro, dentro do estabelecimento onde estavam duas funcionárias e uma cliente. A padaria fica localizada no bairro Lagoa, em Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte.
Morreram no local Nathielly Kamilly Fernandes Faria, de 16 anos, e Ione Ferreira Costa, de 56. Já Emanuelly Geovanna Rodrigues Seabra, de 14 anos, filha do dono da padaria, foi socorrida em estado grave e levada ao Hospital Risoleta Neves, na região Norte de Belo Horizonte, mas não resistiu aos ferimentos.
Segundo relatos, o atirador usava touca ninja, estava disfarçado de entregador por aplicativo e fugiu de moto após os disparos. Antes de sair, ele ainda teria apontado a arma para a irmã de Emanuelly, que implorou para não ser morta.
Primeiras suspeitas
Horas após o crime, a Polícia Militar apreendeu um adolescente de 17 anos, ex-namorado de Nathielly, apontado inicialmente como suspeito.
Ele foi conduzido à delegacia, ouvido com representante legal e autuado por ato infracional análogo a homicídio qualificado, sendo apresentado ao Ministério Público para possível internação.
A mãe do jovem negou o envolvimento do filho.
Carta alegando inocência
Após a apreensão, o adolescente enviou uma carta à mãe afirmando que não participou do ataque.
“Mãe, pelo amor de Deus, me tira desse lugar. Não aguento mais pagar por uma coisa que eu não fiz. Eu amava demais a Nathielly, jamais faria uma coisa dessas”, escreveu.
No texto, ele pede que sejam reunidas imagens de câmeras de segurança e testemunhos para comprovar que não esteve na padaria no momento dos disparos. “Estão falando que me viram dentro da padaria discutindo com ela. Quero ver provarem isso, porque eu nunca entrei naquela padaria”, afirmou.
A defesa apresentou álibis indicando que o jovem estaria em uma mercearia no momento do crime. O Ministério Público se manifestou no mesmo sentido, e a Justiça deferiu a soltura, com pedido de inclusão do adolescente e da família em programa de proteção a vítimas. A liberação ainda depende da conclusão dos trâmites.
Prisão de outro suspeito
Na madrugada do dia 11, a Polícia Militar prendeu um homem de 30 anos no bairro Céu Azul, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte.
Segundo os militares, ele confessou ser o autor do ataque e foi encontrado com arma de fogo, carregadores e uma touca ninja. O suspeito também teria admitido outro ataque a tiros em uma oficina mecânica no dia seguinte, sem relação com o caso da padaria.
De acordo com as investigações, o homem frequentava a padaria e trabalhava em uma barbearia próxima ao local. A suspeita é de que ele queria ter um relacionamento com Nathielly, que teria recusado. Ela foi a primeira a ser baleada.
Dor das famílias
Familiares afirmam que o suspeito era conhecido e frequentava o estabelecimento diariamente.
“Ele ia muito lá, tomava café de manhã e à tarde, todo mundo o tratava bem, jamais pensei que ele era capaz de fazer isso”, relatou Amanda Rodrigues, mãe de Emanuelly.
Segundo ela, a filha pode ter sido atingida ao tentar defender a prima. “No primeiro disparo, tenho certeza de que a Emanuely tentou ajudar a prima e acabou levando um tiro na cabeça”, disse.
Uma quarta vítima, de 19 anos, sobreviveu ao ataque. Conforme o relato repassado pela família, o criminoso chegou a apontar a arma para ela, mas desistiu. “Ele disse que não atirou não foi por sorte dela, mas tinha acabado as balas”, contou Amanda.
Após o crime, a padaria permanece fechada e a família decidiu colocar o comércio à venda.
Oito dias depois do ataque, parentes aguardam justiça. “Ele destruiu três famílias, espero que continue preso”, afirmou a mãe de uma das vítimas.
Investigação
Em pronunciamento conjunto na manhã desta quinta-feira (12), a Polícia Civil informou que o homem de 30 anos preso em flagrante por posse/porte ilegal de arma de fogo após tentar ocultar uma arma artesanal.
Segundo os delegados responsáveis, as primeiras diligências começaram após acionamento do 190 por volta de 20h40 do dia do crime. No local, militares encontraram tumulto, marcas de sangue e realizaram o isolamento, enquanto o SAMU constatou duas mortes ainda dentro da padaria e socorreu a terceira vítima.
As investigações iniciais consideraram o envolvimento do adolescente apreendido, cujo celular e aparelhos das vítimas foram recolhidos para perícia. No entanto, a apuração avançou após a identificação de uma tentativa de homicídio com modo de execução incomum em uma oficina próxima, levando à hipótese de atuação do mesmo autor nos dois ataques.
Com base em informações da comunidade, a Polícia Militar chegou ao homem de 30 anos, preso com arma artesanal, capacete e motocicleta compatíveis com os elementos investigados. Embora a autoria ainda não esteja formalmente confirmada, ele passou a ser tratado como principal suspeito.
O auto de prisão em flagrante foi encaminhado à Justiça com pedido de prisão preventiva, e também houve representação por prisão temporária específica em relação às mortes na padaria.
Sobre o adolescente, a Polícia Civil informou que o procedimento segue formalmente em andamento, mas que o Ministério Público representou pela desinternação após o surgimento do novo suspeito.
As autoridades afirmam que a motivação ainda não está confirmada e trabalham com hipóteses, incluindo possíveis razões passionais ou patrimoniais, sem divulgação para não comprometer diligências. O suspeito preso não possui registros de prisão anterior, mas tem boletins de ocorrência por ameaças, perseguições e ocorrências envolvendo mulheres.
O inquérito foi instaurado como homicídio, e eventual enquadramento como feminicídio dependerá da motivação comprovada ao final da apuração.





