O cérebro guarda, pelo menos, três cópias de cada memória. A afirmação vem de um estudo da Universidade de Basel, sediada na Suíça, publicado em agosto, na revista científica Science. Os pesquisadores observam que diferentes grupos de neurônios no hipocampo codificam essas cópias de formas distintas: algumas se fortalecem com o tempo, outras permanecem estáveis, e há aquelas que perdem intensidade gradualmente.
Esta não é a única novidade vinda dos laboratórios. Enquanto os suíços analisavam os mecanismos de armazenamento, cientistas da University College London, na Inglaterra, acompanhavam 76 adultos durante oito dias e constatavam que meia hora de exercício pela manhã pode melhorar em até 5% o desempenho da memória no dia seguinte. Paralelamente, pesquisadores norte-americanos da Universidade de Tulane investigavam como a dieta mediterrânea altera as bactérias intestinais e influencia a cognição.
Essas descobertas abrem novas possibilidades para compreender como organizamos mentalmente experiências e conhecimentos. Também permitem entender como ferramentas de IA para criar mapa mental gratuito podem auxiliar na visualização e estruturação dessas informações.
Três memórias em vez de uma
Os neurônios do hipocampo se dividem em três categorias quando o assunto é guardar lembranças. Os chamados “precoces” começam fracos, mas ganham força com o tempo. Os “intermediários” nascem estáveis e assim permanecem. Já os “tardios” surgem potentes e vão se enfraquecendo. Foi o que explicou a equipe liderada pelo pesquisador e professor assistente de neurobiologia da Universidade de Basel, Flavio Donato.
“Sinto que, agora, temos pontos de entrada biológicos para modular a plasticidade da memória de uma forma que pode nos permitir torná-la mais ou menos plástica, a fim de preservá-la ou basicamente reescrevê-la”, declarou à Live Science.
Essa diversidade neuronal pode explicar como o cérebro gerencia simultaneamente a estabilidade e a flexibilidade das memórias. No transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), por exemplo, medicamentos poderiam ativar os neurônios tardios, mais maleáveis durante a psicoterapia. Já no caso de demência, o caminho seria estimular os precoces, que guardam informações com mais estabilidade.
O exercício de hoje, a memória de amanhã
A pesquisadora Mikaela Bloomberg e sua equipe em Londres queriam entender se os benefícios cognitivos dos exercícios duravam mais que algumas horas. Para isso, viabilizaram a participação de 76 voluntários, entre 50 e 83 anos, e os acompanharam por uma semana. A resposta veio: dentro daquela amostra, quem se exercitava pela manhã apresentava melhor memória episódica e de trabalho no dia seguinte.
“Nossas descobertas sugerem que os benefícios da atividade física para a memória de curto prazo podem durar mais do que se pensava, possivelmente até o dia seguinte, em vez de apenas algumas horas após o exercício”, explicou em comunicado oficial da University College London.
A pesquisa considerou como “atividade moderada ou vigorosa” qualquer exercício que aumente a frequência cardíaca, como caminhada rápida, dança e até subir escadas. O sono também se mostrou fundamental: dormir mais horas, sobretudo em sono profundo, contribuiu para melhorias nas memórias episódica e de trabalho e na velocidade psicomotora.
Dieta mediterrânea pode melhorar cognição
Na Universidade de Tulane, a pesquisadora Rebecca Solch-Ottaiano foi uma das envolvidas na investigação de outro caminho para a cognição: o microbioma intestinal. O estudo do qual ela faz parte, publicado no Gut Microbes Reports, acompanhou camundongos alimentados com dieta mediterrânea, rica em azeite, peixe e fibras, durante 14 semanas.
Os resultados demonstraram que quatro tipos de bactérias benéficas aumentaram, enquanto cinco tipos prejudiciais diminuíram. Os animais apresentaram melhor flexibilidade cognitiva e memória de trabalho.
“Nossas descobertas sugerem que as escolhas alimentares podem influenciar o desempenho cognitivo ao remodelar o microbioma intestinal”, afirma.
Capacidade de armazenamento cerebral supera estimativas
Com mais de 100 trilhões de conexões neuronais, o cérebro humano processa informações através de sinapses que se fortalecem ou enfraquecem conforme o uso. Pesquisas anteriores apontavam limitações nessas estruturas. Agora, parte dos cientistas passa a defender que a capacidade de armazenamento de informações sinápticas supera estimativas anteriores.
Segundo a Live Science, o estilo de vida afeta diretamente a plasticidade sináptica. O processo se intensifica com o aprendizado constante. Especialistas comparam o cérebro a um músculo: sem exercício regular, perde a funcionalidade de forma progressiva.





