A romantização da produtividade e o corpo como extensão do desempenho

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Mike Alves

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A romantização da produtividade e o corpo como extensão do desempenho

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Nos últimos anos, a ideia de produtividade ganhou um protagonismo quase absoluto na forma como vivemos e nos relacionamos com o mundo. De aplicativos de tarefas a metas pessoais cronometradas, tudo parece ter virado performance. E nesse contexto, até o corpo passou a ser visto como uma extensão da eficiência: um instrumento que precisa estar sempre em sua melhor forma, alimentado corretamente, com sono em dia, rotina de treinos e foco absoluto. Mas será que estamos mesmo cuidando de nós ou apenas tentando manter a engrenagem funcionando?

A cultura da alta performance saiu dos escritórios e foi parar nas academias, nas redes sociais e até nas mesas de jantar. Comer saudável deixou de ser apenas uma questão de bem-estar e passou a carregar uma simbologia: a de disciplina. Exercitar-se, da mesma forma, ganhou status de obrigação moral. O resultado disso? Uma pressão constante para estarmos sempre rendendo – inclusive no descanso, que agora precisa ser “de qualidade”.

Não é à toa que, nas redes sociais, influencers mostram suas rotinas milimetricamente organizadas, despertando às 5h da manhã para fazer jejum intermitente, treinar, meditar e tomar suplementos. Produtos como creatina da marca Soldiers têm ganhado cada vez mais visibilidade nesse meio, já que muitas pessoas buscam alternativas para melhorar a performance nos treinos e alcançar resultados mais rápidos. 

E, claro, não há nada de errado em querer se alimentar melhor, exercitar-se ou estabelecer metas. A questão é o porquê de tudo isso. Estamos fazendo essas escolhas por nós mesmos, por prazer, ou apenas porque internalizamos a lógica de que precisamos ser produtivos o tempo todo? Até que ponto o autocuidado virou apenas mais uma tarefa na longa lista de afazeres?

Corpo como vitrine do desempenho

Num cenário em que o tempo livre é quase um luxo e descansar pode ser malvisto, o corpo passou a ser um reflexo do desempenho. Pessoas com corpos considerados “em forma” são vistas como mais organizadas, determinadas e até mais confiáveis. Essa associação, reforçada pela publicidade e pelas redes, aprofunda ainda mais a romantização da produtividade – agora, também física.

A alimentação saudável, por exemplo, já não é mais só uma questão de saúde. Virou sinônimo de sucesso. Quem opta por uma marmita caseira, sem processados, rica em proteínas e vegetais, é muitas vezes elogiado pela disciplina. Quem escolhe o fast food pode ser julgado, mesmo que aquela escolha tenha sido feita por praticidade, orçamento ou simplesmente vontade. O julgamento moral sobre a comida diz muito sobre como transformamos hábitos pessoais em declarações públicas sobre caráter e eficiência.

A lógica é a mesma com a prática de exercícios físicos. Não treinar passou a ser visto como preguiça, como se a ausência de uma rotina fitness fosse uma falha de personalidade. Isso tudo reforça a ideia de que o valor das pessoas está diretamente atrelado ao quanto elas produzem – seja no trabalho ou na academia.

A armadilha da comparação

Esse ambiente de alta cobrança cria uma armadilha invisível: a da comparação constante. Mesmo quando não percebemos, estamos sendo expostos a padrões inalcançáveis de produtividade e forma física. Isso pode gerar frustração, ansiedade e até distorções sobre o próprio corpo. Afinal, como competir com uma rotina que parece perfeita no Instagram, cheia de resultados rápidos e sem falhas?

Não ajuda o fato de que o algoritmo favorece justamente esses conteúdos que vendem produtividade como estilo de vida. É fácil cair na armadilha de achar que todo mundo está conseguindo, menos você. E, nesse ciclo, muitas vezes consumimos produtos, cursos ou suplementos na tentativa de nos aproximar dessa imagem ideal. Às vezes, um simples “descontaço” em uma loja online já é o empurrão para comprar algo que nem estava nos nossos planos, mas que promete fazer parte desse pacote de produtividade e eficiência.

Mas será que precisamos mesmo comprar essa ideia?

Repensar o desempenho

Uma alternativa possível – e necessária – é questionar essa lógica. Em vez de ver o corpo como um projeto em andamento ou uma vitrine de performance, talvez possamos enxergá-lo como uma parte de quem somos, merecedora de cuidado e respeito, mesmo nos dias de cansaço e imperfeição. Isso passa por reconhecer que nem sempre teremos energia para treinar, vontade de comer saudável ou disposição para cumprir todas as metas do dia. E tudo bem.

Desempenho não precisa ser o norte de todas as decisões. Há beleza também no ócio, no improviso, na escuta do próprio ritmo. Nem toda escolha precisa ser produtiva para ser válida. Comer algo “não tão saudável” pode ser um momento de prazer, de conexão com outras pessoas ou de alívio em meio a uma rotina apertada. Dormir até mais tarde pode ser um gesto de autocuidado real. E não cumprir a meta do dia não é sinônimo de fracasso – é apenas vida real.

Ao reconhecer nossos próprios limites e desejos, abrimos espaço para uma relação mais equilibrada com o corpo, a alimentação e o exercício. Em vez de buscar a perfeição, podemos buscar coerência com aquilo que sentimos, precisamos e podemos fazer. E, surpreendentemente, é aí que mora o verdadeiro bem-estar.

O autocuidado sem pressa

A romantização da produtividade nos ensinou a correr. Mas talvez o desafio atual seja aprender a desacelerar. O autocuidado real – aquele que respeita o corpo e o tempo de cada um – não cabe em fórmulas prontas, em tabelas de performance nem em metas inalcançáveis.

Pode ser que, em vez de acordar às 5h, o que você precise seja dormir uma hora a mais. Em vez de procurar a rotina alimentar perfeita, talvez o que falte seja escutar o seu corpo. Às vezes, o caminho para o equilíbrio não está em adicionar mais uma tarefa à lista, mas em tirar algumas dela. O descanso também é parte da produtividade. O prazer também faz parte da saúde.

E se, no meio dessa trajetória, você encontrar um descontaço convincente em algo que estava mesmo querendo comprar – seja um suplemento, um acessório para treino ou qualquer outro item que vá te ajudar de forma coerente com seus objetivos –, ótimo. Mas que isso não seja motivado apenas pela pressão de se encaixar em um padrão. Que seja uma escolha consciente, não uma obrigação disfarçada de autocuidado.

Porque, no fim das contas, o corpo não é um projeto. Ele é casa. E nenhuma casa precisa ser perfeita para ser acolhedora.

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