Varizes são muito mais do que uma questão estética. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), cerca de 38% da população brasileira convive com o problema, sendo 45% das mulheres e 30% dos homens. Os números impressionam ainda mais quando olhamos para o Sistema Único de Saúde: a cada hora, em média, seis mulheres são submetidas a cirurgias para tratamento de varizes na rede pública.
Apesar de extremamente comuns, as varizes ainda são cercadas de mitos e desinformação. Muitas pessoas adiam o tratamento por medo da cirurgia tradicional, sem saber que a medicina vascular evoluiu significativamente, oferecendo hoje procedimentos modernos, seguros e minimamente invasivos.”
Para esclarecer as principais dúvidas sobre o tema, conversamos com o Dr. Rafael Apoloni, cirurgião vascular e endovascular formado pela Universidade de São Paulo, com doutorado pela mesma instituição e títulos de especialista em Cirurgia Vascular e Angiorradiologia pela SBACV.
P: Dr. Rafael, vamos começar do básico: o que são exatamente as varizes?
Dr. Rafael Apoloni: As varizes são veias superficiais dilatadas, tortuosas e alongadas que se formam principalmente nos membros inferiores. Para entender melhor, é importante saber que as veias das pernas têm a função de levar o sangue de volta ao coração, trabalhando contra a gravidade. Para isso, elas contam com válvulas que impedem o refluxo do sangue. Quando essas válvulas não funcionam adequadamente, o sangue se acumula nas veias, causando dilatação e o aparecimento das varizes. Não se trata apenas de um problema estético – as varizes comprometem a circulação e podem causar diversos sintomas que afetam significativamente a qualidade de vida.
P: Quais são os primeiros sinais de que alguém está desenvolvendo varizes?
Dr. Rafael Apoloni: Os sintomas iniciais costumam ser sutis e muitas vezes são ignorados. Os pacientes relatam sensação de peso nas pernas, especialmente no final do dia, cansaço excessivo, dor, queimação e inchaço nos tornozelos. Algumas pessoas também sentem formigamento ou câimbras noturnas. É importante destacar que esses sintomas podem aparecer antes mesmo das veias ficarem visíveis. Por isso, qualquer desconforto persistente nas pernas merece atenção médica, mesmo que você ainda não veja varizes aparentes.
P: Existe uma idade específica em que as varizes costumam aparecer?
Dr. Rafael Apoloni: As varizes podem surgir em qualquer idade, mas são mais comuns a partir dos 40 anos. Dados da SBACV mostram que 70% das pessoas acima de 70 anos apresentam algum grau de doença venosa. Nas mulheres, há picos de incidência relacionados à gestação e à menopausa, devido às alterações hormonais. Porém, não é raro atendermos pacientes jovens, especialmente aqueles com histórico familiar importante. A predisposição genética é o principal fator de risco – se seus pais têm varizes, suas chances de desenvolver o problema aumentam significativamente.
P: Vamos aos mitos e verdades. Cruzar as pernas realmente causa varizes?
Dr. Rafael Apoloni: Segundo o cirurgião vascular São Paulo, esse é um dos mitos mais populares e a resposta é não. Cruzar as pernas não causa varizes. O que acontece é que, se você já tem predisposição ou já desenvolveu o problema, ficar muito tempo na mesma posição – seja sentado com as pernas cruzadas ou não – pode piorar os sintomas, pois dificulta o retorno venoso. Mas o simples ato de cruzar as pernas não é a causa das varizes. A genética, o sexo feminino, a idade e outros fatores são muito mais determinantes.
P: E quanto ao uso de salto alto? Ele causa ou piora as varizes?
Dr. Rafael Apoloni: Outro mito muito difundido. O salto alto, por si só, não causa varizes. O que acontece é que o uso prolongado e frequente de saltos muito altos pode prejudicar a bomba muscular da panturrilha, que é fundamental para o retorno venoso. Quando caminhamos com sapatos baixos, a panturrilha se contrai adequadamente, ajudando a impulsionar o sangue de volta ao coração. Com saltos muito altos, esse mecanismo fica comprometido. Então, o ideal é variar: use salto quando necessário, mas não faça dele seu único calçado. O equilíbrio é a chave.
P: Muitas mulheres têm medo de que a depilação, especialmente com cera quente, possa causar varizes. Isso procede?
Dr. Rafael Apoloni: Não, a depilação não causa varizes. O que pode acontecer é que, em pessoas que já têm vasinhos superficiais (telangiectasias), a cera quente pode causar uma dilatação temporária desses vasos devido ao calor, tornando-os mais visíveis. Mas isso não significa que a depilação está criando vasos ou piorando a doença venosa de base. Se você tem predisposição para varizes, elas vão aparecer independentemente do método de depilação escolhido.
P: E a musculação? Existe a crença de que exercícios com peso podem causar varizes.
Dr. Rafael Apoloni: Mais um mito. A musculação, quando bem orientada, é extremamente benéfica para a circulação. O fortalecimento muscular, especialmente das pernas, melhora o retorno venoso. O que precisa ser evitado são exercícios com carga excessiva e técnica inadequada, que causam aumento muito grande da pressão abdominal – como agachamentos com peso exagerado e má postura. Mas isso não significa que a musculação cause varizes. Pelo contrário, a atividade física regular é uma das principais formas de prevenção.
P: Subir escadas piora o quadro de quem já tem varizes?
Dr. Rafael Apoloni: De acordo com o especialista em varizes, não, subir escadas é um excelente exercício para quem tem varizes. O movimento de subir degraus ativa intensamente a musculatura da panturrilha, que funciona como uma bomba natural, impulsionando o sangue das pernas de volta ao coração. O que pode acontecer é que, durante o exercício, as veias fiquem mais ingurgitadas temporariamente, mas isso não piora a doença. Após o repouso, tudo volta ao normal. Então, suba escadas sem medo – seus vasos agradecem.
P: Existem cremes que realmente funcionam para eliminar varizes?
Dr. Rafael Apoloni: Infelizmente, não. Nenhum creme, gel ou pomada é capaz de eliminar varizes já formadas. As varizes são veias estruturalmente alteradas, com válvulas danificadas. Nenhum produto tópico consegue reverter essas alterações anatômicas. O que alguns produtos podem fazer é aliviar sintomas temporariamente, proporcionando sensação de frescor e alívio do desconforto, mas isso é apenas paliativo. Para tratar varizes de forma definitiva, é necessário intervenção médica especializada.
P: Quando uma pessoa deve realmente se preocupar e procurar um cirurgião vascular?
Dr. Rafael Apoloni: Existem alguns sinais de alerta importantes. Procure um especialista se você apresenta: dor persistente nas pernas, sensação de peso que piora ao longo do dia, inchaço frequente nos tornozelos, veias visíveis e dilatadas, mudanças na cor da pele das pernas (escurecimento ou manchas), coceira intensa nas pernas, ou se você tem histórico familiar importante de varizes. Mesmo que os sintomas sejam leves, uma avaliação precoce permite tratamento mais simples e previne complicações. Não espere o problema evoluir para estágios avançados.
P: Quais são os riscos de não tratar as varizes?
Dr. Rafael Apoloni: As varizes são uma doença progressiva. Se não tratadas, podem evoluir para complicações sérias. Entre elas estão as flebites, que são inflamações e tromboses das veias superficiais, causando dor intensa e vermelhidão. Pode ocorrer sangramento espontâneo das varizes, que às vezes é volumoso e assustador. A pele pode sofrer alterações permanentes, com escurecimento, endurecimento e, nos casos mais graves, formação de úlceras venosas – feridas crônicas de difícil cicatrização. Dados brasileiros mostram que 15% a 20% dos pacientes com varizes chegam a esse estágio avançado, um número muito superior à média mundial de 1% a 5%. Isso reforça a importância do diagnóstico e tratamento precoces.
P: Vamos falar sobre os tratamentos modernos. Muitas pessoas ainda associam o tratamento de varizes a uma cirurgia grande e dolorosa. O que mudou?
Dr. Rafael Apoloni: A cirurgia vascular evoluiu dramaticamente nas últimas décadas. Hoje, a maioria dos casos de varizes pode ser tratada com técnicas minimamente invasivas, que não exigem internação prolongada, têm recuperação rápida e resultados excelentes. As três principais tecnologias modernas são o laser endovenoso, a radiofrequência e o tratamento de varizes com espuma densa. Todas elas podem ser realizadas com anestesia local e sedação leve, com alta no mesmo dia.
P: Como funciona o laser endovenoso?
Dr. Rafael Apoloni: O laser endovenoso, também chamado de EVLT (Endovenous Laser Treatment), é uma técnica revolucionária. Fazemos uma pequena punção na veia safena, guiada por ultrassom, e introduzimos uma fibra de laser dentro da veia. A energia do laser aquece a parede interna do vaso, causando sua obliteração – ou seja, a veia fecha e é gradualmente absorvida pelo organismo. O sangue é automaticamente redirecionado para veias saudáveis. O procedimento pode ser feito com anestesia local, dura cerca de 40 minutos a uma hora, e o paciente vai para casa no mesmo dia. A recuperação é rápida, com retorno às atividades normais em poucos dias.
P: E a radiofrequência? É diferente do laser?
Dr. Rafael Apoloni: O princípio é semelhante, mas a fonte de energia é diferente. Na radiofrequência, usamos ondas de radiofrequência para aquecer a parede da veia e causar seu fechamento. Introduzimos um cateter especial dentro da veia, também guiado por ultrassom, e a energia de radiofrequência promove o aquecimento controlado e uniforme da parede venosa. A escolha entre laser e radiofrequência depende das características de cada caso e da experiência do cirurgião.
P: A escleroterapia com espuma é aquela aplicação que muitas pessoas conhecem para vasinhos?
Dr. Rafael Apoloni: Sim, mas a escleroterapia evoluiu muito. A técnica tradicional com líquido é excelente para vasinhos pequenos. Já a escleroterapia com espuma, guiada por ultrassom, permite tratar varizes de maior calibre. Injetamos uma substância esclerosante na forma de espuma diretamente na veia doente. A espuma desloca o sangue e age na parede do vaso, causando uma reação inflamatória controlada que leva ao fechamento da veia. É uma técnica muito versátil, pode ser realizada em consultório, e é especialmente útil para varizes recidivadas ou em pacientes que não podem, ou não querem, se submeter a procedimentos cirúrgicos.
P: E a microcirurgia? Ainda é necessária em alguns casos?
Dr. Rafael Apoloni: Sim, a microcirurgia continua sendo uma técnica importante no arsenal terapêutico. Ela consiste na retirada de varizes através de pequenas incisões milimétricas na pele. É indicada para varizes muito tortuosas e superficiais, que não respondem bem às técnicas endovenosas. O procedimento é feito em ambiente hospitalar, mas com alta no mesmo dia. As incisões são tão pequenas que muitas vezes nem precisam de pontos, apenas de micropore. A recuperação exige repouso de 3 a 5 dias, e as cicatrizes são praticamente imperceptíveis. Frequentemente, combinamos diferentes técnicas no mesmo paciente para obter o melhor resultado.
P: Esses tratamentos modernos são acessíveis? Estão disponíveis no SUS?
Dr. Rafael Apoloni: A disponibilidade varia. No sistema público, a cirurgia tradicional ainda é a mais realizada, embora alguns centros de referência já ofereçam as técnicas endovenosas. Nos planos de saúde e na rede privada, essas tecnologias estão cada vez mais acessíveis. É importante que o paciente converse com seu cirurgião vascular sobre todas as opções disponíveis para seu caso específico. O investimento vale a pena quando consideramos a recuperação mais rápida, menos dor, menor risco de complicações e resultados estéticos superiores.
P: Para finalizar, quais são suas dicas de ouro para prevenir o aparecimento de varizes?
Dr. Rafael Apoloni: A prevenção é fundamental, especialmente para quem tem histórico familiar. Minhas principais recomendações são:
- Pratique atividade física regular. Caminhada, natação, ciclismo e dança são excelentes para a circulação. O importante é movimentar as pernas.
- Mantenha o peso adequado. A obesidade aumenta significativamente a pressão nas veias das pernas.
- Evite ficar muito tempo parado na mesma posição. Se seu trabalho exige que você fique sentado ou em pé por longos períodos, faça pausas regulares para movimentar as pernas. A cada hora, levante-se, caminhe um pouco, faça flexões dos pés.
- Quando estiver descansando, eleve as pernas. Deitar-se com as pernas elevadas acima do nível do coração por 15 a 20 minutos ajuda o retorno venoso.
- Mantenha-se hidratado e tenha uma alimentação rica em fibras. A constipação intestinal aumenta a pressão abdominal e prejudica o retorno venoso.
- Use meias de compressão quando indicado pelo seu médico, especialmente em viagens longas ou se você tem fatores de risco.
- E por fim, faça avaliações periódicas com um cirurgião vascular, especialmente se você tem histórico familiar. O diagnóstico precoce permite tratamento mais simples e previne complicações.
P: Dr. Apoloni, qual sua mensagem final para quem está lendo esta entrevista?
Dr. Rafael Apoloni: Minha mensagem é: não ignore os sinais do seu corpo. Varizes não são apenas uma questão estética – são uma doença vascular que merece atenção e tratamento adequado. A boa notícia é que a medicina vascular moderna oferece soluções seguras, eficazes e com recuperação rápida. Não deixe o medo da cirurgia tradicional impedir você de buscar ajuda. Converse com um cirurgião vascular, entenda suas opções e tome uma decisão informada. Suas pernas merecem cuidado, e você merece qualidade de vida. Quanto mais cedo você procurar ajuda, mais simples será o tratamento e melhores serão os resultados.
Referências
- Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Estimativas sobre Varizes.
- SBACV. “A cada dia, pelo menos 145 mulheres são internadas para tratamento de varizes no Brasil”. Julho de 2023.
- Ministério da Saúde. Dados de internações por varizes no SUS (2013-2022).
- Viarengo LMA, et al. “Resultados de médio e longo prazo do tratamento endovenoso com laser”. Jornal Vascular Brasileiro, 2017.
- França LHG, et al. “Insuficiência venosa crônica. Uma atualização”. Jornal Vascular Brasileiro, 2020.





