Terapia com répteis ajuda crianças especiais

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Guilherme aguarda ansioso o início de sua sessão de terapia. Agitado, o menino – que tem uma doença neurodegenerativa – requer jogo de cintura da fonoaudióloga Andrea Ribeiro, que com calma e um celular o faz deitar no espaço em que será tratado por ela e uma jiboia.

O que para muitos causaria medo e ansiedade aos poucos tranquiliza o menino que, enquanto ouve suas músicas favoritas, tem uma cobra – que usa a força de seu corpo para matar suas presas – deslizando em seu peito.

Como se influenciado pelo ritmo lento do réptil, Guilherme chega ao fim da sessão muito mais calmo, comportamento que se reflete em casa, de acordo com sua mãe. “No dia da réptil (terapia) ele fica chamando para vir para cobra. (…) Quando a cobra sobe nele, ele relaxa. Teve um dia que ele até dormiu”, conta a mãe do menino, a dona de casa Cilene Soares.

Junto de outras 100 crianças, Guilherme participa de uma terapia inovadora no Brasil, a terapia com répteis, aplicada na ONG Walking Equoterapia. Segundo a ONG, 70% dos atendimentos feitos no local são gratuitos, mantidos por “padrinhos” que contribuem mensalmente com a organização. O restante do trabalho é direcionado a pacientes com condições de custear o tratamento.

Com cerca de um ano de aplicação no país, o método auxilia em diversos tipos de transtornos e deficiências, de ordem motora ou cognitiva, e tem entre seus objetivos melhorar a atenção, o raciocínio e o convívio social, entre outros fatores.

Vítima de um acidente de moto aos 18 anos, Paulo – hoje com 26 – teve uma lesão neurológica e, por isso, perdeu os movimentos das pernas e dos braços. O rapaz tem também dificuldades para se alimentar e, por isso, conta com a ajuda de uma cobra para aperfeiçoar sua mastigação.

"Logo em seguida (ao início da terapia com répteis) ele começou a ter uma nova expressão, já com um sorriso que ele não tinha. Durante nove anos de tratamento, ele não tinha expressão nenhuma. Depois da réptil (terapia), ele começou a ter outras expressões, um sorriso que ele não tinha. Foi uma alegria muito grande", afirmou a mãe de Paulo, a dona de casa Maria do Socorro Palácio.

Além da cobra, os profissionais também utilizam os lagartos teiú e iguana, além de um jacaré do papo amarelo nas sessões.

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De acordo com o educador ambiental Thomaz Girotto, da SOS Ambiental – que cede os animais para a terapia -, os répteis passam por um processo de avaliação prévia, onde têm o comportamento avaliado, para assegurar que não reagirão com agressividade com os pacientes.

“Cada bicho tem a sua maneira. Então, a gente mexe muito com os bichos, manuseia muito, para saber se eles estão acostumados, se eles não vão ter uma reação”, disse Girotto.

Eficácia

A terapia com os répteis chegou ao Brasil após uma observação prática de Andrea. Segundo ela, durante sessões de pet-terapia – feita com animais como cães, gatos, coelhos e tartarugas – as crianças demonstravam predileção pelo jabuti.

A partir da observação, a fonoaudióloga passou a estudar o animal e assim descobriu, no Reino Unido, o uso de répteis no tratamento de diversas doenças. A ideia foi estudada por dois anos e aplicada pela primeira vez na ONG em julho de 2014.

Segundo Andrea, os resultados obtidos nos pacientes são perceptíveis, tanto na mudança de comportamento como na evolução da função muscular.

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Apesar do entusiasmo dos terapeutas e também das mães dos pacientes, a terapia com répteis não é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

O CFM, porém, reconhece, desde 1997, a equoterapia – que utiliza equinos – como método terapêutico com indicações para portadores de paralisia cerebral, acidentes vasculares cerebrais, traumas craneo-encefálico, Síndrome de Down, Síndrome de West, dependência química, incoordenação motora, distúrbios visuais, auditivos e da fala, autisto, estresse, entre outros.