Técnica de enfermagem adota senhora com câncer abandonada pela família

Arquivo Pessoal

Com salário de R$ 1,2 mil e um filho de 14 anos, a técnica de enfermagem Verônica Grossi, de 34 anos, decidiu adotar uma senhora que vivia em condições de abandono e foi rejeitada pela família após ser diagnosticada com câncer. Essa história tem como cenário a cidade de Carangola, no interior de Minas Gerais, e começa a se desenrolando na Justiça como o segundo caso de adoção ajuizada no Brasil.

Ao portal da RedeTV!, Verônica se emocionou ao relembrar como conheceu a dona Maria Martins Ferreira, que completa 60 anos em outubro, e a quem ela chama de “minha menina”. À época, ela era parte da equipe do Programa Saúde da Família (PSF) e fez uma visita na região onde a senhora morava com a filha.

“Eu conheci minha menina deve ter uns oito anos. Um dia, fazendo uma visita, me falaram que tinha mudado uma idosa para uma casa tal e eu fui. Chegando lá, eu encontrei ela e foi paixão à primeira vista”, conta a técnica de enfermagem. “Na primeira vez, eu logo identifiquei que ali tinha um problema de saúde. Ela parecia uns 20 ou 30 anos mais velha”, completa.

Verônica relata que levou um médico na residência para examinar a senhora, mas foi impedida pela filha da mulher de levá-la para fazer os exames solicitados por ele. Preocupada com a deterioração da saúde de dona Maria, a mineira chegou a acionar autoridades, que até foram à residência da família, mas o caso não avançava e ela continuava sem o diagnóstico.

Verônica não desistiu. “Hoje, a gente lembra e morre de rir, se emociona. A filha dela nunca me aceitou. Parece que quis me ver longe da casa e não dava muita liberdade para as minhas visitas, mas eu continuei indo frequentemente”, acrescenta ela e cita a ocasião que mudou tudo: “Foi então que, em dezembro, eu achei minha menina praticamente morta dentro da casa dela”.

Abandonada em casa

De ignorada pela família, dona Maria passou a abandonada em casa e foi encontrada por Verônica. “Já tinha cinco dias que a filha e o genro dela estavam fora da cidade, e deixaram ela lá”, descreve a técnica de enfermagem.

Diante dessa situação, a mulher optou pela solução mais radical. “Levei para o hospital onde eu trabalho, e ela ficou internada por dois meses e dez dias”, conta.

Com a possibilidade de fazer os exames, o diagnóstico veio: câncer na região torácica. A família de dona Maria, no entanto, não se comoveu, segundo Verônica. “Eu corri e fui várias na casa da filha, e ela falou que não queria saber nem tomar conta”, lamenta.

Por isso, além de cuidar da senhora no hospital, Verônica decidiu por adotar a mulher e tomar conta dela também na própria casa. “Depois de conversar com o Jonathan [o filho adolescente], para pedir o consentimento e a ajuda dele, eu falei com a dona Maria se ela queria vir morar comigo e que eu cuidasse dela”, detalha. “Ela agarrou muito forte na a minha mão e falou: ‘oh, minha filha, você vai me tirar desse sofrimento? Mas não tenho dinheiro para te pagar'”, relembra.

Adoção ajuizada

Antes e depois (Foto: Arquivo Pessoal)

Com ajuda de uma assistente social, Verônica fez um documento para provar que dona Maria ficaria sob seus cuidados. Embora sem validade legal, o papel conta com as assinaturas da técnica de enfermagem, dona Maria e a filha dela.

“É apenas um papel que mostra que ela, infelizmente, não quis a mãe”, relembra. “Ela foi a primeira a pegar a caneta, assinar, virar as costas e sair da sala. Diante da Justiça, esse documento não tem valor nenhum, porque não tem registro. Só vale pra mim, se caso a filha aparecer e falar que peguei a dona Maria sem autorização dela”, justifica.

Sem recursos para recorrer à Justiça e efetivar a adoção, Verônica recebeu a ligação da advogada Patricia Novais Calmon, que mora no Espírito Santo, mas viu a história circulando na internet e decidiu ajudá-las sem cobrar por isso.

Ao portal da RedeTV!, Patricia explica que tomou conhecimento do caso de Verônica e dona Maria por meio das redes sociais e quis ajudar. “Me disponibilizei porque acredito na causa”, afirma a advogada, em contato por telefone. “Essa ação é importante para esse contexto social em que a gente vive”, completa ela, que irá visitar a dupla já na próxima semana.

Segundo Patricia, a intenção é entrar com ação de adoção ajuizada em breve. O processo será o segundo do tipo no Brasil. O primeiro ocorreu em 2017, com o caso da cuidadora Glaucia que pediu para adotar dona Cotinha, uma idosa que viveu durante 50 anos em hospital no interior de São Paulo.

Vaquinha virtual

Mesmo diante de todas as dificuldades, Verônica demonstra otimismo com a saúde de dona Maria e a situação financeira da família. E ela garante: não se arrepende de ter estendido a mão para ajudar outra pessoa.

“Vários amigos disseram que eu tinha acabado com a minha vida em pegar uma pessoa que não tinha meios de sobrevivência, sabendo que eu ganho pouco”, relembra. “Eu virei para ela e disse: ‘O quê? Nunca. Estou passando aperto? Estou. Mas isso vai passar, assim como a doença dela. Ela vai ser curada. Hoje, se fosse para fazer tudo novamente, eu faria. Ela passou a ser parte de mim”.

Uma vaquinha virtual deve ajudar no orçamento da família. A meta era arrecadar R$ 5 mil (para bancar exames médicos) até o último domingo (15), mas o resultado surpreendeu: R$ 15.365,00 foram arrecadados com a ajuda de 313 pessoas.

“Esse dinheiro vai ser uma reserva que a gente vai ter, para comprar um alimento e pagar um exame, para dar uma qualidade de vida maior para a dona Maria”, promete. “Não sei como meu salário dá, mas a gente é muito feliz. Ela é a nossa paixão”.

(Foto: Arquivo Pessoal)

(Foto: Arquivo Pessoal)