Pesquisa no século XXI: quando até converter uma imagem virou coisa de cientista

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Mike Alves

Pesquisa no século XXI: quando até converter uma imagem virou coisa de cientista

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Lembro da primeira vez que precisei apresentar minha dissertação para a banca. Era 2019, e eu estava lá, nervosa, tentando explicar minha metodologia quando o professor me interrompeu: “Essa imagem não está carregando direito no projetor”. Simples assim, meses de trabalho quase foram por água abaixo por causa de um formato de arquivo incompatível.

Hoje, cinco anos depois, essa cena se repete diariamente nos corredores das universidades brasileiras. Quem nunca teve que converter webp para png para conseguir inserir uma figura no artigo que está escrevendo? Ou descobrir na última hora que o gráfico lindo que você fez não abre no computador do orientador? Pois é, bem-vindos à era digital acadêmica – onde ser pesquisador significa também ser um pouquinho programador, designer e técnico em informática.

Quando tudo mudou (e ninguém nos avisou)

Conversando com colegas de diferentes gerações, fica claro que houve um divisor de águas. Os professores mais antigos ainda imprimem emails para ler com calma. Já nós, da geração millenial e Z na pós, nascemos no meio dessa transição maluca. Tivemos que aprender SPSS na marra, descobrir o que diabos é um DOI e entender por que o Lattes trava sempre na hora H.

Maria, colega do doutorado em Sociologia na USP, me contou outro dia: “Passei três dias tentando fazer o Mendeley funcionar direito. Quando finalmente consegui, percebi que tinha perdido metade das referências que já tinha catalogado”. Quem nunca, né?

O problema é que ninguém te ensina essas coisas na graduação. Você entra no mestrado achando que vai focar só no seu objeto de pesquisa e, de repente, descobre que precisa virar expert em Excel, aprender a mexer no NVivo, entender de estatística e ainda dar conta das redes sociais acadêmicas.

O circo dos aplicativos acadêmicos

Hoje em dia, todo pesquisador que se preze tem uma coleção de apps no celular que faria inveja a qualquer adolescente. ResearchGate para acompanhar as publicações dos colegas (e tentar não ter inveja dos que publicam mais), Twitter para ficar por dentro dos debates da área, WhatsApp com 15 grupos diferentes de pesquisa – um para cada projeto, claro.

E não para por aí. Tem o Zotero para organizar bibliografia (quando funciona), o Google Scholar para stalkear… digo, acompanhar as citações, o Overleaf para quem se aventura no LaTeX e tem paciência de santo. Ah, e claro, o bom e velho Word, que continua sendo o queridinho da galera das humanas, mesmo com todos os defeitos.

Mas o que mais me impressiona é como essas ferramentas mudaram nossa forma de trabalhar. Antes, você ia na biblioteca, ficava horas xerocando textos, montava fichários físicos. Hoje, você pode acessar milhares de artigos do sofá de casa – quando a internet colabora e a VPN da universidade resolve funcionar.

A realidade nua e crua dos pós-graduandos digitais

Não vou romantizar: essa digitalização toda tem seus perrengues. Semana passada, o Pedro, mestrando em História na UFMG, perdeu dois meses de análise porque o HD externo pifou. “Backup? Que backup?”, foi a resposta dele quando perguntaram. Todos nós já passamos por isso.

E aí tem a questão da desigualdade que ninguém gosta de falar. Enquanto uns têm MacBook Pro e internet fibra ótica, outros dependem do laboratório de informática da faculdade com computadores de 2010 e Windows pirata. A ANPG tem batido nessa tecla há tempos: como democratizar o acesso às tecnologias que viraram essenciais para a pesquisa?

Sem contar que muita gente da nossa geração aprendeu a mexer em smartphone antes de aprender a usar Excel direito. Resultado? Sabemos editar stories no Instagram como ninguém, mas travamos na hora de fazer uma planilha básica.

Inteligência artificial: amiga ou inimiga?

Agora chegou a bola da vez: a inteligência artificial. ChatGPT, Claude, Gemini… todo mundo está experimentando, alguns meio às escondidas, outros assumindo publicamente. A verdade é que essas ferramentas estão mudando o jogo de novo.

Tem gente usando IA para ajudar na revisão de literatura, outros para organizar dados qualitativos. Mas também tem o pessoal assustado, achando que a máquina vai roubar nosso emprego. Pelo que vejo no MIT Technology Review e outros lugares, a discussão está só começando.

O engraçado é que muitos orientadores ainda estão meio perdidos nessa. Na semana passada, uma amiga me contou que o professor dela proibiu o uso de qualquer IA na pesquisa, mas ao mesmo tempo pediu para ela “dar uma olhada nessas ferramentas aí para ver se ajudam”.

O que fazer com essa bagunça toda?

Olha, não tenho receita de bolo, mas algumas coisas ficaram claras nesses anos todos de pós-graduação. Primeiro: é melhor abraçar a tecnologia do que lutar contra ela. Segundo: sempre, sempre faça backup (aprendi isso da pior forma possível). Terceiro: não tenha vergonha de pedir ajuda – todo mundo está patinando junto.

O que mais me incomoda é como os programas de pós-graduação fingem que essas questões não existem. Cadê a disciplina de letramento digital? Onde estão os workshops sobre ferramentas de pesquisa? Por que temos que aprender tudo na raça, no YouTube e nos grupos de WhatsApp?

Talvez seja hora dos programas assumirem que formar pesquisadores hoje significa também formar pessoas digitalmente fluentes. Não estou falando de transformar todo mundo em programador, mas pelo menos dar as ferramentas básicas para sobreviver nesse mundo novo.

No fim das contas, a tecnologia pode complicar nossa vida, mas também abriu possibilidades que nossos orientadores nem sonhavam quando estavam na nossa posição. É só aprender a navegar nessa onda sem se afogar no processo.

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