O perigo silencioso no quarto das crianças: por que o Ronco Infantil não deve ser ignorado

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Mike Alves

O perigo silencioso no quarto das crianças: por que o Ronco Infantil não deve ser ignorado

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Um som que muitos pais associam ao sono profundo e pesado de um adulto pode, na verdade, ser um sinal de alerta quando vem do quarto ao lado. O ronco em crianças, frequentemente subestimado ou até mesmo considerado normal, é um sintoma que merece atenção e investigação. Longe de ser apenas um ruído noturno, o ronco infantil pode indicar problemas de saúde subjacentes que, se não tratados, podem ter consequências sérias para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional dos pequenos.

Para aprofundar este tema crucial, convidamos a Dra. Milene Bissoli, renomada otorrino particular com doutorado pela USP e 20 anos de experiência, para nos guiar através das complexidades do ronco infantil. Com sua vasta prática clínica e cirúrgica, especialmente no cuidado de crianças, a Dra. nos ajudará a entender por que o ronco nunca é normal na infância e quais os caminhos para garantir um sono verdadeiramente reparador para as crianças.

O que é o Ronco e por que acontece nas crianças?

O ronco é o som produzido pela vibração dos tecidos da garganta quando o ar passa por uma via aérea parcialmente obstruída durante o sono. Embora um ronco ocasional, especialmente durante um resfriado, possa ser considerado comum, o ronco habitual – aquele que ocorre na maioria das noites – é um forte indicativo de que algo não vai bem.

“O ronco em crianças nunca deve ser considerado normal, pois é um indicativo de que o sono não está sendo reparador. Isso é preocupante, pois um sono de qualidade é fundamental para o desenvolvimento infantil”, alerta a Dra. Milene Bissoli. [5]

As causas para essa obstrução são variadas, mas em crianças, a principal suspeita recai sobre a hipertrofia das amígdalas e da adenoide. Estas estruturas, que fazem parte do sistema de defesa do corpo, podem crescer de forma exagerada, estreitando o espaço para a passagem do ar. O Hospital São Francisco Xavier (FSFX) e a Usisaúde também apontam para outras causas comuns, como desvio de septo, alergias e até mesmo deformações na arcada dentária pelo uso prolongado de chupeta ou pelo hábito de chupar o dedo. [4]

Apneia Obstrutiva do Sono: o lado mais sombrio do ronco

O ronco, por si só, já é um sinal de dificuldade respiratória. No entanto, ele pode ser o sintoma mais audível de uma condição muito mais grave: a Apneia Obstrutiva do Sono (AOS). A apneia é caracterizada por pausas na respiração durante o sono, que podem durar de 10 segundos a mais de um minuto. Essas paradas fazem com que o nível de oxigênio no sangue caia, forçando o cérebro a despertar brevemente a criança para que ela volte a respirar, muitas vezes com um engasgo ou um ronco mais forte.

Esses microdespertares, que podem ocorrer dezenas ou até centenas de vezes por noite, impedem que a criança atinja as fases mais profundas e restauradoras do sono. A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia estima que, embora cerca de 10% das crianças ronquem, entre 1% e 3% delas sofrem de apneia do sono. [1] Já a American Heart Association eleva essa estimativa para até 6% de todas as crianças e adolescentes, com uma prevalência ainda maior entre crianças com obesidade, chegando a 30-60%. [3]

As consequências da apneia não tratada são profundas e podem afetar todos os aspectos da vida da criança.

Uma criança que não dorme bem não se desenvolve bem. O sono é um pilar para o crescimento, a consolidação da memória, o aprendizado e a regulação do humor. Quando o sono é fragmentado pela apneia, as consequências aparecem tanto de dia quanto de noite.

Impactos no comportamento e no aprendizado

Durante o dia, a criança com apneia pode apresentar uma série de sintomas que muitas vezes são confundidos com outros problemas. O Manual MSD lista sintomas como problemas de concentração, hiperatividade e sonolência diurna. [2] A SBPT complementa com alterações de personalidade, como mau humor, birras e irritabilidade. [1]

Não é raro que essas crianças recebam diagnósticos equivocados de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), quando, na verdade, o comportamento agitado é uma manifestação do cansaço extremo. A dificuldade de concentração e a sonolência prejudicam diretamente o desempenho escolar, comprometendo a absorção de novos conhecimentos e o desenvolvimento cognitivo.

Riscos para a saúde física

Os perigos da apneia obstrutiva do sono vão além do comportamento. A longo prazo, a condição pode levar a problemas de saúde graves. A American Heart Association (AHA) publicou uma declaração científica alertando para a ligação entre a apneia do sono infantil e o aumento do risco de problemas de pressão arterial e cardíacos. [3]

Crianças com apneia podem apresentar menor queda da pressão arterial durante o sono, um fenômeno que em adultos está associado a um maior risco de eventos cardiovasculares. Além disso, mesmo casos leves de apneia estão associados a um maior risco de síndrome metabólica, um conjunto de fatores que inclui pressão alta, níveis elevados de insulina e triglicerídeos, e baixos níveis de colesterol bom (HDL). Em casos graves e prolongados, a apneia pode levar à hipertensão pulmonar, uma condição séria em que a pressão nos vasos sanguíneos que levam do coração aos pulmões se torna perigosamente alta.

O crescimento da criança também pode ser afetado. A respiração crônica pela boca, uma consequência da obstrução nasal, pode levar a alterações no desenvolvimento do rosto. “Respirar pela boca de forma crônica pode causar alterações no crescimento da face da criança”, explica a otorrino infantil Milene Bissoli. [5] O FSFX acrescenta que a condição pode levar a problemas na formação e consolidação da arcada dentária, do crânio e da face. [4]

Diagnóstico e Tratamento: uma abordagem multidisciplinar

Diante da suspeita de ronco habitual ou apneia do sono, o primeiro passo é procurar um especialista. “Se uma criança ronca na maioria das noites, é essencial que ela passe por uma avaliação com um otorrinolaringologista”, recomenda a Dra. Bissoli. [5]

O diagnóstico definitivo da apneia é feito através da polissonografia, um exame que monitora a atividade cerebral, a respiração, a frequência cardíaca e os níveis de oxigênio durante uma noite de sono. O Manual MSD destaca que os critérios para o diagnóstico em crianças são mais baixos que os de adultos, com um índice de apneia-hipopneia (pausas ou reduções na respiração) maior que 2 por hora sendo considerado anormal. [2]

O tratamento dependerá da causa e da gravidade do problema. Em muitos casos, a cirurgia para remoção das amígdalas e da adenoide é a solução mais eficaz, especialmente quando essas estruturas estão aumentadas. A perda de peso em crianças obesas e o tratamento de alergias também são medidas importantes.

Para os casos em que a cirurgia não é indicada ou não resolve completamente o problema, o CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) pode ser utilizado. Este aparelho, através de uma máscara, fornece um fluxo de ar contínuo que mantém as vias aéreas abertas durante o sono.

Um chamado à ação para Pais e Cuidadores

O ronco infantil é um sintoma que não pode ser negligenciado. Ele é a voz de um sono que não está cumprindo sua função vital de restaurar, consolidar e preparar a criança para um novo dia de descobertas. Ignorá-lo é correr o risco de comprometer o futuro de uma criança, com impactos que podem durar a vida toda.

Ao observar um padrão de ronco frequente, respiração bucal, sono agitado ou qualquer um dos sintomas diurnos mencionados, os pais devem agir. A busca por uma avaliação médica especializada é o primeiro e mais importante passo para garantir que o silêncio no quarto das crianças seja sinônimo de um sono tranquilo e verdadeiramente saudável.

Referências

[1] Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). Apneia Obstrutiva do Sono em Crianças.

[2] Manual MSD (Edição para Profissionais). Apneia obstrutiva do sono em crianças (AOS).

[3] American Heart Association (AHA). Kids who snore could be at risk for blood pressure, heart problems.

[4] Hospital São Francisco Xavier / Usisaúde. Meu filho ronca e eu não sei o que fazer! Saiba mais sobre o ronco infantil.

[5] Dra. Milene Bissoli. Especialista fala do Ronco em Crianças. Vídeo do YouTube.

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