Ingrid Oliveira, dos saltos ornamentais, se abriu sobre sua saúde mental. A atleta chorou ao desabafar em seu Instagram, nesta sexta-feira (9), por meio de um vídeo gravado há um mês, que ela relutou para publicar. Em meio às Olimpíadas de 2024, e ela diz que não se sente bem nem emocionalmente, por conta de sua saúde mental, e nem fisicamente, devido às suas lesões. A atleta contou, ainda, que acreditou em algum momento que havia superado suas questões.
“Evoluir também é deixar ir, e enfrentar meus maiores medos e encara-los de frente, sem medo de me expor a coisas que um dia me feriram, me fizeram chorar e tiraram meu sono à noite. Deixar ir tudo que um dia já me machucou é o maior ato de amor que eu poderia fazer para mim mesma”, legendou.
“Fiz esse vídeo no dia 6/7, e desde então refleti se postava ou não esse desabafo, se valeria ou não a pena expor coisas que sempre guardei para mim, mas vi que guardar tudo me fez adoecer. Então estou aqui, expondo coisas que ninguém nunca saberia, que muita gente passa por isso no off, porque não quero mais que isso assombre minha mente”, explicou.
“O meio esportivo é assim. Não que a gente não possa se expressar, mas isso pode soar como fraqueza. Não pelo que as pessoas acham, mas o que a gente mesmo acha da gente. Quando a saúde mental não está bem, não é sobre os outros, é sobre a gente. A gente se sente fraco de não conseguir lidar, e tem tanta gente que consegue lidar tão bem com as coisas. Pelo menos é como eu me sinto”.
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“Só eu sei das minhas batalhas e dores, e consegui passar. Talvez não da forma ideal, porque hoje em dia eu estou assim. Na época, parecia a coisa certa e que eu tinha superado. Se você não lida da forma correta, uma hora a conta chega. Há vários anos não me sinto bem psicologicamente, emocionalmente, e fisicamente, com lesões”.
Ingrid contou que foi ensinada pela mãe a sempre manter o foco em seus objetivos, independemente de situações externas. “Quando minha mãe morreu, em 2013, no dia seguinte eu já estava treinando. Eu tinha uma coisa muito certa na minha cabeça, que era me classificar para os Jogos Olímpicos de 2016 porque era o sonho da minha mãe me ver lá”, relembrou.
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A atleta relembrou a polêmica que protagonizou durante os Jogos do Rio. Na ocasião, ela e o atleta da canoagem slalom, o também brasileiro Pepê Gonçalves, cometeram um incidente disciplinar grave ao passar uma noite juntos no quarto que Ingrid dividia com a ex-parceira Giovanna Pedroso.
“Consegui! Apesar de não ter sido uma Olimpíada ideal. Bem longe do que eu imaginava diante de tudo o que aconteceu lá, diante de erros, confusões e polêmicas. Foi a minha primeira Olimpíada, eu tinha 19 anos, e o que restou depois foi uma Ingrid quebrada emocionalmente. Mas eu lidei como tudo que lidava na minha vida e só ignorei e tentei seguir em frente”, disse.
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“Estar passando por isso é uma consquência, óbvio. Eu estava ignorando todos os ataques e ameaças contra mim, minha treinadora e alguns amigos meus. A maioria das pessoas ficou com raiva de mim, e eu só tinha 19 anos, e não sabia lidar com muita coisa. Tanto que demorei anos para contar o que realmente aconteceu. Tinha muita gente dando pitaco em coisas que não sabiam. Não estou me isentando da responsabilidade, mas sei o que fui fazer na Olimpíada, e não foi aquilo”, pontuou.
“Depois de 2016, o que eu mais queria era continuar e mostrar para as pessoas quem eu era, que não era aquilo que elas estavam falando. Esse, para mim, é o maior propósito na vida.
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Relacionamento abusivo
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Ingrid, então, relembrou os anos seguintes, com conquistas na carreira e lesões, até classificação para a Tóquio 2020, algo que ela não acreditou que seria possível por causa do que vivia fora da água.
“Eu vivia um relacionamento extremamente tóxico, onde eu era constantemente invalidada e abusada do meu psicológico, do que restou dele. Foi o ano que realmente achei que fosse morrer, e de fato eu queria. Eu tentei. Eu tentei acabar [com a própria vida] três vezes. Tive muita pressão do meu ex para não externar isso”, relembrou.
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Ingrid foi encorajada a se separar do então namorado. “Falavam para eu terminar porque eu iria acabar morrendo, e iria acabar acontecendo porque eu não queria mais viver. Todo mundo falava que eu não precisava daquilo. Eu sabia, mas não conseguia me libertar. Acabei criando uma dependência emocional. Foram tantas coisas que vivi. Abuso emocional, físico, agressão… na parte esportiva, comecei a ter lesões porque meu corpo começou a reagir. Foi um ano e meio vivendo isso”, contou.
Ingrid disse que o ex ainda a deixou sozinha durante durante a reação de uma das tentativas de suicídio: “E isso não foi o fim [do namoro]. Eu ainda continuei”. Ela afirmou, então, que levou dele um tapa na cara durante sua festa de aniversário de 2022, na frente dos convidados.
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“Para ele falar que não me bateu, ele pegou a minha mão e deu um tapa na minha cara. E foi só ali que tive coragem [de terminar], porque todo mundo viu o que aconteceu. Acho que se ninguém tivesse visto, provavelmente eu estaria até hoje com ele. Tudo que ele fazia, revertia os papéis e falava que era culpa minha. Ele tentou convencer uma amiga minha de que eu que tinha batido nele. Ela disse ‘se eu não tivesse visto, ele iria me convencer'”, disse.
“Ele tentava me convencer de que era a melhor pessoa para mim, que ninguém nunca iria me amar da forma que ele me amava, e que eu que causava isso, que ele só reagia à minha forma. E eu não fazia praticamente nada. Eu nunca fui ciumenta. Eu sempre fui estressada. Isso, sim. Terminei com ele, e consegui tirar um peso gigante das minhas costas”, afirmou.
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Diagnóstico de depressão
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Ingrid, então, falou sobre o momento em que recebeu o dignóstico a respeito de sua saúde mental após não ficar satisfeita com suas vitórias desde o fim do namoro. “Então, veio a depressão, com a qual fui diagnosticada. No fundo, eu já sabia porque não me sentia mais a mesma Ingrid de 2016. Por trás da máscara de que estava tudo bem e que eu estava feliz, tinha uma Ingrid toda destruída por dentro. E tem o lado da vergonha. Eu fingia que estava bem”, lamentou ela.
A atleta disse que chorava durante os treinos nessa época, e que teve suporte do Comitê Olímpico Brasileiro, além dos seus preparadores e fisioterapeutas. “Já tive umas quatro crises de ansiedade. Nessas crises, eu acho que se fizer alguma coisa, eu vou morrer. Esse pensamento fica tão forte na minha cabeça que não consigo pensar em mais nada. Isso é tão forte que toma conta”, explicou.





