Futebol americano à brasileira: NFL capta mais fãs, mas seleção pena por apoio




Uma inserção comercial de 30 segundos no intervalo do Super Bowl, a final da liga profissional de futebol americano (NFL),custará este ano US$ 4,5 milhões, ou cerca de R$ 11,6milhões. Por pouco mais de 1% desse valor, as pessoas que sonham emconsolidar a modalidade como prática esportiva no Brasil poderiam dar um passo histórico rumo a esse objetivo sem gastar dinheiro do próprio bolso.

A seleção brasileira de futebol americano (sim, ela existe) está no Panamá, onde enfrentará os donos da casaneste sábado, às 22h (de Brasília). Uma vitória do Brasil Onças, apelido da equipe,significa conquistar pela primeira vezuma vaga na Copa do Mundo da modalidade, que será realizada em julho, na cidade de Canton, nos Estados Unidos.Os organizadores garantiram ao Brasil o custeio de alimentação e hospedagem, desde que eles arcassem com as passagens aéreas.

Sem nenhum patrocinador para bancar a aventura, os integrantes da delegação começaram a buscar alternativas para não perder essa oportunidade. Veio a ideia de fazer umcrowdfunding, uma vaquinha por meio de um site. Até o ex-jogador Zico, a pedido de Ramon Martire, quarterback do Flamengo FA e da seleção, entrou na campanha para ajudar na arrecadação .A meta era alcançar R$ 90 mil, mas a poucos dias de confirmar a viagem o montante não chegava a R$ 4 mil. O jeito foi abrir a carteira e garantir a viagempor conta própria.

A delegação brasileira no Panamáconta com 55 integrantes -45 jogadores, oito membros da comissão técnica e dois diretores. Cada umpagou em média R$ 2,5 mil pela viagem. Ocrowdfunding, porém,segue ativo(aos interessados,clique aqui). "Na verdade, a vaquinha virou uma forma de reaver o dinheiro",ressaltouFlávio Cardia, presidente da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA). O número alto de integrantes é reflexo das regras do jogo: ostimes usamduas formações, defensiva e ofensiva, com 11 jogadores cada, além de substituições livres, o que aumenta a rotatividade em campo durante uma partida, disputada emquatro períodos de 15 minutos.

Independentemente do resultado e do dinheiro investido, Cardia garante que o esforço já valeu a pena. A partida entre Onças e Panamá será transmitida ao vivo no Brasil pela ESPN+, às 22h. "Isso já vai melhorando a visibilidade do esporte, até para patrocínios futuros. Ajuda também nas divisões de base, com crianças assistindo e querendo jogar."

Aumento de popularidade

Embora tenha entusiastas pelo Brasil há mais de duas décadas, o futebol americano ganhou um aumento considerável de fãs e praticantes nos últimos anos. A internet, por meio de fóruns e redes sociais, diminuiu a distância entre eles, e times começaram a nascer. A prática no formato "americano" – em campo de grama e com equipamentos de proteção para absorver o contato físico – ainda é recente, acontece desde 2009 pelo país, e nem todos contam com o material mais adequado. Existe até um Campeonato Brasileiro, com envolvimento de alguns clubes tradicionais como Botafogo, Corinthians, Coritiba, Flamengo, Portuguesa e Vasco.

A televisão também tem papel fundamental no aumento de popularidade. A ESPN, que exibe a NFL no Brasil desde 1994, obteve média de 123 mil espectadores por jogo transmitido no período 2013/14, segundo dados do Ibope, contra 53 mil em 2012/13.

Já o Esporte Interativo, que mostra a NFLem rede aberta há três anos, registrou nesta temporada127 mil pessoas por minuto emmédia porjogo, um aumento de54% em relação àtemporada 2013/14. De acordo com dados da emissora,96% da audiência sãopessoas acima de 18 anos, e20% do montanteé formado por mulheres. Como as regrasdo futebol americano são complexas, ambos os canais apostamem transmissões didáticas para ampliar a audiência.

Pesquisa divulgada pela Ibope Repucom na última quarta-feiraestima que3,3 milhões de pessoas se interessam por futebol americano no Brasil, o que equivale a 3,6% da população, o triplo da amostragem de 2013, de 1,2%.

O Super Bowl deste ano, entre New England Patriots e Seattle Seahawks, neste domingo, naUniversity of Phoenix Stadium, no Arizona, além deESPN e Esporte Interativo,contará com exibição em 50 salas de cinema de20 cidades do Brasil. Nos Estados Unidos, a última final da NFL, entre Seahawks e Denver Broncos, foi assistida por 111,5 milhões de pessoas, a maior audiência da história da TV americana.

Wesley Hitt/Getty Images

Cairo Santos, kicker do Kansas City Chiefs, é o primeiro brasileiro a disputar a NFL. Ele estreou na liga contra o Tennessee Titans

Ao contrário deMLB (beisebol) e NBA (basquete), quejá fazem eventos e trabalhos no Brasil para o desenvolvimento da modalidade, a aproximação da NFL no país ainda é tímida. A venda de material esportivo dos times, por exemplo, é uma ação recente. Em 2014, a associação de jogadores da liga organizou no Rio de Janeiro, em parceria com a CBFA, o American Football Without Barriers, uma clínica de iniciação ao futebol americano para crianças e adolescentes, mas o intercâmbio ainda engatinha.

A atual temporada da NFL contou com umbrasileiro pela primeira vez: o kicker Cairo Santos, do Kansas City Chiefs, que não chegou aos playoffs. Até 2014, o Seattle Seahawks tinha em seu elenco Breno Giacomini, nascido nos Estados Unidos, mas cujafamília é de Minas Gerais.

Sãofatores que motivam as pessoas envolvidas com o futebol americano verde-e-amareloaacreditar na massificação da modalidade no longo prazo. Um resultado histórico do Brasil Onças no Panamá neste sábado podemarcarmais um passo rumo a esse sonho.