Estudo aponta que Tether manipulou alta do bitcoin em 2017

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Tether foi responsável por até 50% da valorização do bitcoin
Estudo da Universidade do Texas analisou histórico de movimentações e relação com o preço do bitcoin (Foto: Reprodução/Globo)

Estudo aponta que Tether manipulou alta do bitcoin em 2017

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Um estudo do professor John Griffin da Universidade do Texas alega que movimentações financeiras com a ficha digital Tether foram responsáveis por até 50% da valorização do bitcoin entre março de 2017 e março de 2018.

O artigo acadêmico, escrito em colaboração com o estudante de pós-graduação Amin Shams, identificou que a emissão das fichas de tether seguia as baixas do bitcoin, segurando o preço da moeda e revertendo a queda. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (13).

Para afirmar que o Tether foi usado para manipular o preço do bitcoin, a pesquisa analisou o caminho das fichas desde a sua emissão.

Há mais de 2 bilhões de Tethers em circulação atualmente, mas o estudo identificou que a emissão ocorria em lotes grandes — e não de forma gradual e constante. No dia 20 de dezembro, por exemplo, foram emitidos 50 milhões de tethers.

Em sua maioria, as fichas eram transferidas à exchange Bitfinex, de onde se espalhavam por todo o mercado, normalmente ao longo de vários dias após uma baixa no bitcoin (em épocas de alta, a pesquisa observou que as movimentações não ocorriam da mesma forma).

Esse fluxo de Tethers, que na prática era tratado pelo mercado da mesma forma que uma entrada de dólares por causa da promessa de sustentação da ficha de um tether para um dólar, elevava o preço em dólar do bitcoin e de outras moedas. As exchanges que trabalhavam diretamente com tethers eram as primeiras a registrar a alta.

Os pesquisadores estimam que, sem as movimentações do Tether, o Bitcoin estaria valendo aproximadamente US$ 4.100 em março de 2018, quando a moeda era cotada a aproximadamente US$ 7.000. Para fazer essa análise e isolar a valorização causada pela ficha, os pesquisadores removeram a alta dos dias em que houve a possível manipulação do Tether.

O que é o Tether?

O Tether não é uma criptomoeda, mas sim uma “ficha” digital. Diferente das criptomoedas, cuja emissão é controlada pela programação, ele é controlado por uma entidade capaz de emiti-lo livremente. Essa entidade é a Tether, Inc., que na verdade é operada pela exchange (corretora de criptomoedas) Bitfinex.

A Bitfinex opera o Tether com a promessa de que cada Tether emitido equivale a US$ 1. Para isso, são mantidas reservas em dólar para sustentar a equivalência: para cada tether em circulado, há US$ 1 na reserva. A existência dessas reservas nunca foi comprovada, no entanto, porque a auditoria que estava em andamento foi considerada muito complexa pelos responsáveis e dispensada.

Nos mercados de criptomoedas, o Tether funciona como uma “nota promissória de dólar”. Exchanges do mundo todo que não têm registro bancário para trabalhar com dólares de verdade aceitam e trocam tethers entre seus usuários como se eles fossem dólares de fato. A ideia é que quem compra um tether poderia, mais tarde, resgatar o valor por dólares.

Já em 2017, havia muitos relatos de que o resgate dos tethers por dólares de verdade era muito difícil ou até impossível, com a tether obrigando quem tinha fichas a trocá-las no próprio mercado. O estudo não aborda essas questões, mas demonstra a relação entre as movimentações de tether e as flutuações de preço do bitcoin.

A Bitfinex nega qualquer manipulação ou ilegalidade nas atividades do Tether.

Investigação da Bitfinex

As emissões do Tether foram “virtualmente interrompidas”, segundo o estudo, em fevereiro e março de 2018. No fim de janeiro, foi noticiada pelo site “Bloomberg” a existência de uma investigação nas operações da Bitfinex, mas não se sabe se há alguma relação entre os dois fatos.

Em 2017, quando a manipulação estaria em vigor, a cotação do bitcoin chegou a bater na casa dos US$ 20.000 em dezembro, o maior valor já atingido pela criptomoeda. Ao final da tarde desta quinta-feira (14), o bitcoin era cotado a aproximadamente US$ 6.600 na GDAX, a maior exchange norte-americana que trabalha com dinheiro real.

Pesquisadores já identificaram manipulação no mercado

Em 2017, Griffin e Shams denunciaram manipulações no VIX, um índice que mede a volatilidade dos mercados e é conhecido como “índice do medo”. O VIX é um índice do mercado regulado, sem relação com as criptomoedas.

Uma denúncia anônima corroborou as alegações de fraude em fevereiro de 2018, dando início a ações na Justiça envolvendo o índice. A denúncia teria partido de um executivo que trabalhou em fundos de investimento.

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