Em 2025, a expressão “faculdade não serve mais para nada” virou mantra em vídeos virais, grupos de WhatsApp e podcasts de empreendedorismo. A narrativa é sedutora: o mundo mudou, as empresas querem skills, não papel na parede, e o diploma tradicional estaria virando relíquia de um tempo em que o conhecimento só existia dentro da sala de aula. Mas será que essa história resiste aos dados e à realidade do mercado brasileiro e global?
O que os números dizem em plena era digital
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD 2025) não deixa margem para romantismo: brasileiros com ensino superior completo ganham, em média, 173% a mais do que quem tem apenas ensino médio. A diferença saltou de 144% em 2019 para o patamar atual, mostrando que a vantagem salarial do diploma não só se manteve como aumentou na década da transformação digital.
No mercado formal, o Caged de janeiro a outubro de 2025 registrou que 71% das vagas criadas com salário acima de 5 salários mínimos exigiam ensino superior completo. Em tecnologia — o setor que mais alimenta o discurso anti-diploma —, 82% dos cargos de nível pleno e sênior em grandes empresas (Magalu, Nubank, iFood, XP, Stone, BTG) ainda pedem graduação concluída ou em curso, conforme levantamento da plataforma Glassdoor Brasil.
Quando o “sem diploma” realmente funciona
Sim, existem exceções brilhantes. Desenvolvedores full-stack que aprenderam tudo no YouTube e hoje ganham R$ 18 mil remoto para empresas americanas. Donos de e-commerce que largaram a faculdade no 3º período e faturam milhões. Esses casos existem e são reais, mas representam menos de 4% dos profissionais de alta performance em tecnologia no Brasil, segundo estudo da Revelo e da ABStartups em 2025.
O mesmo estudo mostrou que, entre os profissionais de tecnologia com salário acima de R$ 20 mil mensais, 91% possuem ensino superior completo (Ciência da Computação, Engenharia, Sistemas de Informação ou áreas correlatas). O portfólio ajuda, mas o diploma ainda é o filtro inicial mais eficiente para a grande maioria das empresas.
O verdadeiro valor do diploma na era digital
O diploma de qualidade não é mais (e nunca foi) apenas um comprovante de conteúdo técnico. Na era digital, seu valor está em quatro pilares que nenhum curso de 9 meses consegue replicar com a mesma profundidade:
1. Formação de base sólida — essencial para acompanhar a velocidade de mudança tecnológica
2. Desenvolvimento de pensamento crítico e resolução de problemas complexos
3. Credibilidade institucional e networking de longo prazo
4. Porta de entrada para pós-graduação, mestrado, doutorado e cargos executivos
Empresas como Google, Apple e IBM podem ter removido o requisito de diploma em alguns processos nos EUA, mas no Brasil apenas 11 grandes empresas adotaram essa política até 2025 — e mesmo nessas, o percentual de contratados sem diploma não chega a 8%, segundo pesquisa da Cia de Talentos.
O custo da ilusão do caminho rápido
Milhares de jovens estão abandonando ou adiando a graduação atraídos por promessas de “ganhar R$ 10 mil em 6 meses aprendendo programação”. O resultado? Um exército de profissionais com conhecimento superficial, alta rotatividade e dificuldade de progressão. A Brasscom estima que 47% dos egressos de bootcamps intensivos saem do primeiro emprego em menos de 18 meses por não conseguirem acompanhar a complexidade das demandas reais.
Enquanto isso, formados em universidades bem avaliadas (públicas ou privadas de excelência) apresentam taxa de retenção acima de 80% nos primeiros 5 anos de carreira e salário médio 42% maior que os colegas de cursos rápidos, conforme o Guia Salarial 2025 da Robert Half.
O diploma como ativo antifrágil
Na era da inteligência artificial, profissões inteiras desaparecem a cada 5–7 anos. Quem tem apenas habilidades técnicas específicas corre risco alto de obsolescência. Já quem possui formação superior sólida consegue migrar entre áreas, aprender rapidamente novas tecnologias e ocupar posições de liderança. O diploma funciona como um seguro contra o futuro imprevisível.
Prova disso: durante a pandemia e a aceleração digital de 2020–2023, a taxa de desemprego entre profissionais com ensino superior caiu 28%, enquanto entre os sem diploma subiu 41%.
O caminho híbrido que está ganhando força
O futuro não é “diploma versus nada”. É diploma + habilidades práticas atualizadas constantemente. As melhores universidades já entenderam isso: USP, Unicamp, Insper, FGV e PUCs lançaram programas de microcertificações, parcerias com Coursera e Google Career Certificates que podem ser feitos paralelamente à graduação. O diploma continua sendo a espinha dorsal, mas agora vem acompanhado de badges digitais comprovando competências específicas.
Atenção ao atalho perigoso
Todos os anos, milhares de pessoas caem na tentação de comprar diploma superior em sites clandestinos, acreditando que o papel basta. É o pior erro possível: além de crime (art. 297 do Código Penal), empresas usam ferramentas de verificação que detectam diplomas falsos em minutos, destruindo carreiras antes mesmo de começarem.
Conclusão: sim, o diploma ainda é o melhor caminho — e ficou mais importante
Na era digital, o diploma de ensino superior de qualidade não perdeu valor. Pelo contrário: tornou-se mais valioso exatamente porque separa quem tem base sólida de quem tem apenas conhecimento superficial e passageiro.Para a imensa maioria dos brasileiros que não nasceu em família rica nem tem QI de gênio ou sorte de loteria, a graduação em instituição séria continua sendo o investimento de maior retorno e menor risco disponível. O mundo mudou, sim. Mas mudou reforçando a importância da educação profunda em vez de premiar atalhos.Quem entende isso não discute se o diploma “vale a pena”. Entende que, em 2025, ele é a diferença entre sobreviver às mudanças e liderá-las.





