Dina Boluarte: entenda crise que fez presidente do Peru ser derrubada

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Divulgação/Governo do Peru

Dina Boluarte: entenda crise que fez presidente do Peru ser derrubada

Congresso aprovou destituição após onda de violência e aumento da criminalidade; José Jerí assume o poder até 2026

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O Congresso do Peru aprovou, na madrugada desta sexta-feira (10), a destituição da presidente Dina Boluarte por “incapacidade moral permanente”. A decisão foi tomada por ampla maioria.

O Legislativo peruano acelerou o processo de impeachment e convocou Boluarte para apresentar defesa na noite de quinta (9). A presidente se recusou, chamando o procedimento de “inconstitucional”. Mesmo sem a presença dela, o Congresso votou a destituição.

O resultado foi praticamente unânime: 118 votos a favor, nenhum contra e nenhuma abstenção. Após a votação, o presidente do Congresso, José Jerí, advogado de 38 anos e membro do partido Somos Perú, foi empossado como novo chefe de Estado.

Ele comandará o país até as eleições previstas para abril de 2026 e a posse do próximo presidente, marcada para 28 de julho do mesmo ano. A mudança encerra quase três anos de um governo marcado por protestos, escândalos e uma grave crise de segurança.

Crise de segurança

O ponto final para o governo Boluarte foi o agravamento da violência no país. A destituição ocorreu horas após um ataque a tiros durante um show em Lima. Quatro artistas foram baleados, em um episódio que acelerou a decisão do Congresso, segundo o jornal New York Times.

As moções de impeachment foram apresentadas por partidos de direita e de centro, incluindo o Força Popular, de Keiko Fujimori, e o Renovação Popular, liderado pelo prefeito de Lima, Rafael López Aliaga. Ambos haviam apoiado Boluarte anteriormente.

Nos últimos meses, o Peru enfrentou um aumento recorde nos casos de extorsão e assassinatos por encomenda. Dados da Polícia Nacional apontam que os registros de extorsão saltaram de algumas centenas em 2017 para mais de 2.000 por mês em 2025.

Governo impopular

Boluarte assumiu o poder em dezembro de 2022, após o autogolpe fracassado de Pedro Castillo em 2021, que o levou à destituição e prisão no ano seguinte. Desde então, ela sobreviveu a sete tentativas de impeachment antes da decisão desta sexta-feira.

O descontentamento não ocorria apenas no Legislativo. As sucessivas denúncias de corrupção e os conflitos entre os poderes reduziram a popularidade de Boluarte a míseros 2%, segundo o jornal El País.

A ex-presidente enfrentou diversos escândalos: desde suspeitas de corrupção e uso de relógios de luxo até uma ausência não comunicada para realizar cirurgias estéticas. Nenhum desses episódios, porém, havia sido suficiente para tirá-la do cargo.

A relação de Boluarte com a comunidade internacional também foi marcada por conflitos. Ela rompeu com os governos de México, Colômbia e Honduras, e ignorou ordens da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Ela também promulgou uma lei de anistia para militares acusados de violações de direitos humanos entre as décadas de 1980 e 2000 – uma medida amplamente criticada por organizações civis.

Instabilidade política

A destituição de Boluarte é reflexo de uma crise política que parece não ter fim no Peru. Há quase dez anos, o país tem enfrentado escândalos de corrupção e rivalidades entre o Executivo e o Legislativo que geraram uma instabilidade governamental sem precedentes.

A crise começou nas eleições de 2016. Naquele ano, Pedro Pablo Kuczynski derrotou Keiko Fujimori, representante do “fujimorismo”. O termo se refere ao movimento ligado ao ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o país de maneira autoritária nos anos 90.

A derrota de Keiko foi celebrada por setores progressistas, mas o resultado trouxe consequências graves. Embora derrotados na presidência, os fujimoristas conquistaram a maioria no Congresso, o que deu início a um grande conflito entre o parlamento e o Executivo.

Desde então, contando com o caso recente de Boluarte e a chegada de Jerí, o país já teve sete presidentes e viu cinco deles renunciarem ou serem destituídos por processos de impeachment.

Corrupção sistêmica

Política e corrupção têm laços antigos no Peru. Em 2018, Pedro Pablo Kuczynski decidiu renunciar quando vieram à tona denúncias de envolvimento dele no caso Odebrecht, o maior escândalo de corrupção da América Latina. Ele foi preso no ano seguinte, acusado de lavagem de dinheiro.

Kuczynski não foi o único. Outros dois ex-presidentes andinos também foram presos entre 2017 e 2019 em investigações conduzidas pela Lava Jato no Peru: Ollanta Humala, que governou entre 2011 e 2016, e Alejandro Toledo, mandatário entre 2001 e 2006.

Alan García, presidente em dois mandatos, de 1985 a 1990 e 2006 a 2011, também enfrentou acusações, mas morreu depois de dar um tiro na cabeça quando ia ser preso, em 2019.

O escândalo ainda se espalhou para além do Executivo. Keiko Fujimori, presidente do partido Fuerza Popular, foi acusada de receber recursos da empreiteira para a campanha eleitoral de 2011. Ela foi presa por lavagem de dinheiro em 2018 e em 2020.

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