Brasil deve encerrar 2025 com mais de 73 mil novos casos de câncer de mama

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Mike Alves

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Brasil deve encerrar 2025 com mais de 73 mil novos casos de câncer de mama

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O Brasil caminha para registrar 73.610 novos casos de câncer de mama até o final de 2025, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Os dados representam um risco estimado de 66,54 casos novos a cada 100 mil mulheres. Os números confirmam a doença como o tipo de câncer mais incidente entre as brasileiras depois dos tumores de pele não melanoma.

A projeção nacional acompanha uma tendência de crescimento observada nos últimos anos. De acordo com estudo publicado na revista científica BMC Cancer, a taxa de mortalidade por tumores de mama no Brasil cresceu de forma contínua entre 2000 e 2021, passando de 10,5 para 11,8 óbitos a cada 100 mil mulheres. O cenário preocupa especialistas da área de Oncologia, que alertam para a necessidade de melhorias no sistema de rastreamento e no tratamento da doença.

Geografia desigual do câncer

O mapa da incidência revela um Brasil partido. Enquanto o Sudeste registra o maior risco estimado do país, de 84,46 casos por 100 mil mulheres, a Região Norte apresenta taxa de 24,99. Entre esses extremos, estão o Sul (71,44), o Centro-Oeste (57,28) e o Nordeste (52,20 por 100 mil).

As disparidades regionais refletem não apenas diferenças socioeconômicas, mas também desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Segundo dados do Painel Oncologia do DataSUS referentes a 2024, 41% dos casos de câncer de mama começaram a ser tratados após o prazo de 60 dias estabelecido pela Lei nº 12.732/2012, comprometendo as chances de cura das pacientes.

Mortalidade cresce mais entre mulheres jovens

Se o câncer de mama historicamente afeta mais mulheres após os 50 anos, os dados recentes apresentam um novo panorama: o aumento da mortalidade entre mulheres com menos de 40 anos. O estudo da BMC Cancer detectou crescimento médio de 1,8% ao ano na taxa de óbitos entre mulheres com menos de 40 anos, três vezes superior ao registrado na faixa dos 50 aos 69 anos.

A oncologista da Faculdade de Medicina da USP, Maria Del Pilar Estevez Diz, vê desafios específicos nessa população. Ela lembra que essas pacientes sequer fazem parte do público-alvo dos programas de rastreamento do SUS, criando um vácuo na detecção precoce.

A mama mais densa das jovens é outro desafio, já que o tecido produtor de leite dificulta a visualização de alterações na mamografia. Somado a isso, há a prevalência de tumores mais agressivos nessa faixa etária, que podem evoluir com mais velocidade.

Disparidade étnica agrava cenário

Outro recorte preocupante diz respeito às desigualdades raciais. Entre 2000 e 2020, segundo pesquisadores do Inca, a mortalidade por câncer de mama cresceu 2,3% ao ano entre mulheres negras, quase quatro vezes mais rápido que entre as mulheres brancas (0,6% anuais). 

O oncologista do Inca, Jessé Lopes da Silva, explica, em entrevista à imprensa, que os dados revelam como as mulheres negras são desproporcionalmente afetadas por desigualdades estruturais, enfrentando, em média, maiores obstáculos no acesso à educação e aos serviços de saúde, além de estarem mais representadas em regiões com menor infraestrutura médica.

Tempo perdido pode resultar em vidas perdidas

Pesquisa realizada pela Fosp com 437 mulheres em São Paulo identificou diversas barreiras para a realização dos exames preventivos. Entre os motivos pessoais estavam o medo de encontrar algo errado, constrangimento, falta de tempo e a percepção de que o exame era desnecessário por “não estarem sentindo nada”. As entrevistadas também relataram dificuldades do sistema público, como problemas para agendar exames e tempo de espera elevado. 

O atraso no início do tratamento compromete as chances de cura. O DataSUS registrou, em 2024, que 41% dos casos de câncer de mama ultrapassaram o prazo legal de 60 dias para início da terapia. A situação varia regionalmente: no Rio Grande do Sul, 33% dos casos tiveram atraso, enquanto no Acre, o percentual chegou a 57%.

A combinação de diagnóstico tardio e demora no início do tratamento resulta em tumores descobertos em estágio avançado, exigindo terapias mais complexas, incluindo radioterapia e outros procedimentos nem sempre disponíveis, o que reduz as chances de sobrevida das pacientes.

Mundo em alerta

A Agência Internacional para Pesquisa de Câncer (IARC) projeta números alarmantes para 2050: 3,2 milhões de novos casos anuais de câncer de mama no mundo, com 1,1 milhão de mortes, caso não haja mudanças nas políticas de prevenção e no tratamento. Sem alterações, a quantidade de casos deve subir 38% e a de mortes, 68% globalmente.

Atualmente, a cada ano são registradas 2,3 milhões de novas notificações e 670 mil mortes por câncer de mama em todo o mundo. No Brasil, os dados mostram que, entre 2008 e 2017, a incidência da doença aumentou de 1% a 5% ao ano, conforme relatório da IARC publicado na revista Nature Medicine.

Falhas no sistema de rastreamento

Em São Paulo, pesquisadores da Fundação Oncocentro (Fosp) identificaram que o sistema de detecção precoce baseado na abordagem oportunista (quando a mulher procura o serviço de saúde) deixou de produzir o efeito desejado.

Como resposta, foi desenvolvido o programa ConeCta-SP, que começou a ser implementado em 2022 e propõe uma mudança de estratégia: em vez de aguardar que as mulheres procurem o serviço de saúde, equipes das unidades básicas identificam ativamente as moradoras na faixa etária de maior risco e as convidam para realizar exames preventivos.

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