Além da perda de peso: novos benefícios dos medicamentos GLP-1

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Mike Alves

Além da perda de peso: novos benefícios dos medicamentos GLP-1

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Nos últimos anos, fármacos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, conhecidos por auxiliar no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, vêm se destacando por efeitos que vão além da balança. Pesquisas recentes sugerem que essas substâncias, pertencentes à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, podem não apenas ajudar a controlar o apetite e a glicose, mas também influenciar a forma como o corpo reage ao álcool e até reverter danos hepáticos associados à gordura no fígado.

Efeitos sobre o consumo de álcool

Um estudo conduzido pela Virginia Tech, publicado na revista Scientific Reports, chamou atenção da comunidade científica ao observar que o uso de medicamentos à base de semaglutida, liraglutida e tirzepatida pode reduzir a vontade de beber e diminuir os efeitos do álcool no organismo.

O experimento envolveu 20 adultos com obesidade, sendo metade em uso contínuo de medicamentos GLP-1 e metade sem tratamento. Após ingerirem uma dose padronizada de álcool, equivalente a uma taça de vinho, os pesquisadores mediram a concentração de álcool no sangue e as sensações subjetivas de embriaguez.

Os resultados mostraram que, entre os usuários de GLP-1, o nível de álcool no sangue aumentou até 50% mais lentamente em comparação ao grupo controle. Além disso, os participantes relataram menor sensação de embriaguez e menos desejo de continuar bebendo.

A explicação está na ação dos GLP-1 sobre o esvaziamento gástrico. Esses medicamentos retardam o tempo que o alimento (ou o álcool) leva para deixar o estômago, o que faz com que o álcool seja absorvido de forma mais gradual. Com isso, o “pico” da embriaguez é reduzido, e a sensação de prazer associada à bebida torna-se menos intensa.

Segundo os autores, esse mecanismo periférico (ou seja: o que ocorre fora do sistema nervoso central) pode representar um novo caminho terapêutico para o tratamento da dependência alcoólica, oferecendo uma alternativa aos medicamentos tradicionais, como a naltrexona e o acamprosato, que atuam diretamente no cérebro.

A ideia do estudo surgiu de relatos espontâneos em redes sociais, de pessoas que diziam ter perdido a vontade de beber após iniciar o uso de Ozempic ou Wegovy. Agora, com evidências controladas, o tema ganha força e abre espaço para pesquisas mais amplas sobre o papel dos GLP-1 no controle do consumo de álcool.

Impacto sobre o fígado e doenças metabólicas

Outra descoberta promissora envolve o potencial da semaglutida na reversão de doenças hepáticas associadas à obesidade, como a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), que é a forma mais grave da popularmente chamada “gordura no fígado”.

De acordo com estudo publicado na revista Nature Medicine, essa molécula tem a capacidade de “reprogramar” a biologia do fígado, revertendo padrões de proteínas associados à inflamação e restaurando o funcionamento normal do órgão.

Esses achados se somam aos resultados de outra pesquisa, envolvendo mais de 1.200 pacientes: a aplicação de semaglutida 2,4 mg resultou na resolução completa da inflamação hepática em 63% dos participantes e em melhora de pelo menos um estágio da fibrose em 37%. É uma conquista considerada transformadora no manejo da doença.

Esses dados indicam que o tratamento não apenas controla o avanço da MASH, mas pode efetivamente reverter o dano já instalado no fígado. Além disso, o estudo apontou para uma perspectiva inovadora: o desenvolvimento de biomarcadores não invasivos que possam substituir as biópsias hepáticas, facilitando o diagnóstico e o acompanhamento clínico por meio de simples exames de sangue.

A obesidade como elo central

Tanto o consumo excessivo de álcool quanto o acúmulo de gordura no fígado estão fortemente associados à obesidade, uma condição que atinge quase um terço dos adultos brasileiros. A sobreposição dessas doenças metabólicas aumenta o risco de cirrose, diabetes e problemas cardiovasculares, tornando urgente a busca por tratamentos mais eficazes e integrados.

Nesse contexto, os agonistas de GLP-1 representam uma das maiores revoluções da medicina metabólica contemporânea. Além de favorecer a perda de peso e o controle glicêmico, eles demonstram potencial para reduzir o desejo por álcool e melhorar a saúde hepática, ampliando o impacto positivo sobre a qualidade de vida dos pacientes.

Um futuro promissor para o tratamento metabólico

As descobertas mais recentes reforçam que medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro vão muito além da estética. Eles se consolidam como ferramentas terapêuticas multifuncionais, capazes de atuar em diferentes frentes: do controle do apetite à proteção de órgãos vitais.

Embora os resultados ainda sejam preliminares em alguns aspectos, como o uso para dependência alcoólica, os estudos em andamento mostram que a ciência está abrindo novas possibilidades para tratar o metabolismo humano como um sistema integrado, e não apenas como um conjunto de sintomas isolados.

O avanço desses medicamentos representa mais do que um marco farmacológico: é um sinal de mudança na compreensão das doenças metabólicas, que passam a ser vistas sob uma perspectiva biológica e comportamental mais ampla. Estamos falando de um passo essencial para transformar o tratamento da obesidade e suas complicações em um processo mais eficaz, seguro e personalizado.

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