A mulher negra e a luta pela representatividade

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Gisela Simona

A mulher negra e a luta pela representatividade

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Em 2014, a então senadora de Mato Grosso Serys Slhessarenko utilizou da tribuna do Senado para dizer que era “preciso criar um símbolo para a mulher negra, tal como existe o mito Zumbi dos Palmares”. Disse ainda: “As mulheres carecem de heroínas negras que reforcem o orgulho de sua raça e de sua história”, e tivemos promulgada a Lei Federal nº 12.987, que instituiu 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e Dia Nacional da Mulher Negra.

Uma data importante como disse a senadora na época, visto que poucas são as personalidades negras desse país que ocupam lugar de destaque, são condecoradas com títulos ou ocupam espaços de poder a fim de servir de referência para nossas meninas e mulheres se inspirarem a também ocuparem esses espaços.

Essa invisibilidade histórica é sempre tema das rodas de conversas, das manifestações dos coletivos que discutem a representatividade da mulher e também da mulher negra. Assim, não poderia deixar passar em branco esse 25 de julho, no qual Mato Grosso tem uma mulher declaradamente preta como Deputada Federal.

Para alguns, só uma característica há mais. Para muitos, uma conquista histórica digna de agradecimento a toda a nossa ancestralidade que, com suas lutas, nos fizeram chegar aqui.

Desde criança carrego comigo uma frase do meu pai: “filha, precisa estudar para ser alguém na vida, vai passar por muitas dificuldades e desafios”. A cada fase da vida fazia mais sentido que por ser mulher, negra, de família simples e origem humilde precisaria fazer mais que muita gente. E foi assim, estudando, que fui avançando.

Convivi com o sacrifício dos meus pais no trabalho para que eu e meus irmãos pudéssemos estudar e entendi, ainda quando pequena, que a forma de compensar tanto esforço, tanta esperança, que eu teria que estudar muito.

Foi pelo conhecimento que ganhei uma bolsa de estudo para uma das melhores escolas da minha cidade e fui conquistando espaços importantes: na sala de aula, na escola, no grupo de esporte, na igreja, nos movimentos sociais.

Escolhi fazer o Curso de Direito. Acreditava que poderia diminuir as injustiças.

Mulheres nos cursos de direito eram uma minoria. Negras, então, algo raro. Fui a única mulher negra na minha turma de colação de grau.

No exercício da advocacia privada tive algumas decepções: nos espaços do sistema de justiça os negros, estão na grande maioria no serviço de faxina e segurança. Então, quando entrava nas salas de audiência era confundida com o autor ou réu da ação e não como advogada da parte.

Pessoas negras estão sub representadas nos espaços de poder e em contrapartida são as que mais ocupam espaços de estigmatização e vulnerabilidade.

Fiz concurso para o Procon-MT. Uma grande oportunidade que tive para dar voz a muitas pessoas. Defender o que todos somos: consumidores. Fui para TV, rádio e jornais. Cheguei a dirigente do Procon, depois referência nacional na luta. Fui exonerada do meu cargo por retaliação às minhas ações contra o sistema e, eu que defendia todos, me senti injustiçada. Quase desisti, mas recebi a solidariedade de tanta gente, que passou um filme na minha cabeça. Não poderia parar. Precisava de mais força para enfrentar isso tudo. Fui candidata a Deputada Federal em 2018 e foram mais de 50 mil votos! Não fui eleita. Mas senti o poder daqueles que sempre defendi. “Desafios sempre virão”, meu pai já dizia. Mas aprendi que construir um futuro diferente é acreditar e lutar por uma vida mais justa para todos nós.

Participei de uma nova eleição fiquei como primeira suplente de Deputada Federal e hoje estou no mandato para representar os consumidores, as mulheres, o povo negro e os serviços públicos.

Infelizmente hoje é uma realidade dizer que as mulheres negras estão em maior número entre os desempregados ou subempregados ou com ocupações informais, menores salários, piores condições de moradia, muitas vivendo abaixo da linha da pobreza. Mulheres negras são as maiores vítimas pelo feminicídio, estão mais expostas a violência obstétrica e é a maior parcela da população carcerária.

Por isso, nesta oportunidade em que celebramos o Dia da Mulher Negra, convido toda a sociedade para o enfrentamento do racismo e a promoção da igualdade racial. E, no parlamento federal, as palavras de ordem devem ser a nossa luta por respeito, cidadania, dignidade e igualdade de oportunidades.

Gisela Simona é cuiabana, advogada, servidora do Procon-MT, especialista em Direito do Consumidor, e deputada federal pelo União Brasil

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