Pesquisas sobre os canais de comercialização no mercado erótico brasileiro mostram que as redes sociais estão entre os principais meios de venda do setor e, ao mesmo tempo, um dos ambientes que mais geram dúvidas para quem atua com revenda. Um estudo da Revista Interdisciplinar de Comunicação (RICOM), da Faculdade de Tecnologia de Taquara (FACCAT), aponta que cerca de 30,2% das vendas de produtos eróticos no Brasil acontecem pelas redes sociais.
Quando o assunto é comunicação, estudos sobre discurso e sexualidade ajudam a entender por que esse tema ainda gera dúvidas. Segundo Pereira (2018), a sexualidade carrega estigmas culturais que influenciam diretamente a forma como o assunto é falado e recebido socialmente. Na prática, isso faz com que a insegurança esteja menos ligada ao produto em si e mais à escolha das palavras, aos limites do discurso e à reação do público, especialmente em ambientes de grande exposição, como as redes sociais.
Para Stephanie Seitz, CEO da Intt, essa hesitação é comum, principalmente entre quem está começando a revender. “Muitas mulheres acham que existe uma forma certa de falar sobre o tema, quando, na verdade, o mais importante é encontrar um tom que combine com a própria identidade e com o público”, explica.
Quando o foco sai do produto e vai para a experiência
Uma mudança perceptível na abordagem sobre produtos íntimos é o deslocamento do foco. Em vez de destacar apenas características técnicas, muitas revendedoras passaram a tratar o tema a partir da experiência, do conforto e do autocuidado. Essa escolha não elimina o produto da conversa, mas o insere em um contexto mais amplo e acessível.
Na visão da Intt, esse tipo de posicionamento tende a reduzir o desconforto tanto de quem comunica quanto de quem consome. Falar de bem-estar, curiosidade e autoconhecimento ajuda a normalizar o assunto e a criar uma narrativa menos carregada de expectativas ou estereótipos.
A importância da escuta e do contexto na venda de produtos íntimos
Outro ponto frequentemente destacado por Stephanie é a importância da escuta. Os caminhos de discurso variam conforme o público e o contexto. Algumas pessoas buscam informação, outras querem discrição, e há também quem já tenha familiaridade com o tema.
Para ela, a troca se torna mais eficaz quando a revendedora observa, escuta e adapta a conversa, em vez de seguir roteiros fixos ou discursos prontos.
Brinquedos eróticos e a diversidade de perfis e momentos
Essa sensibilidade se reflete também na forma como categorias amplas, como a de brinquedos eróticos, são apresentadas. Hoje, esses produtos atendem a diferentes perfis, expectativas e níveis de experiência, o que exige uma narrativa mais cuidadosa e informativa.
Ao contextualizar essa diversidade, a revendedora contribui para quebrar estigmas e amplia o alcance da conversa, mostrando que não se trata de um mercado restrito, mas de um segmento que dialoga com mulheres em diferentes fases da vida.
Produtos que refletem uma nova forma de falar sobre prazer
Alguns produtos ajudam a ilustrar essa mudança de abordagem. O interesse crescente por itens como o sugador de clitóris costuma ser associado a propostas mais simples e intuitivas, que priorizam conforto e autonomia. Na avaliação da Intt, esse tipo de produto acompanha uma transformação na forma como o prazer feminino é conversado e percebido.
Em vez de uma linguagem performática, a conversa passa a destacar a experiência individual, sem pressões ou comparações. Esse enquadramento tende a facilitar tanto a apresentação quanto a aceitação do produto.
Comunicação, confiança e construção de relacionamento com clientes
Para muitas mulheres que buscam independência financeira, criar vínculos de confiança com as clientes é parte essencial do negócio. Quando a conversa é conduzida com respeito e clareza, a relação tende a se prolongar.
Stephanie observa que esse vínculo é construído ao longo do tempo, por meio de informação, escuta e consistência no discurso. Não como garantia de resultados, mas como base para relações mais duradouras e transparentes.
Encontrar o próprio tom: sem fórmulas prontas
Falar de prazer nas redes sociais não exige fórmulas rígidas ou discursos universais. Trata-se de um processo de aprendizado, ajuste e observação. Cada revendedora encontra seu tom a partir da própria experiência, do público com quem se relaciona e dos valores que escolhe comunicar.
Para a especialista, o caminho mais sustentável passa por tratar o tema com naturalidade e responsabilidade, reconhecendo que a comunicação íntima é, acima de tudo, uma construção. Quando isso acontece, o assunto deixa de ser um tabu e passa a ocupar um espaço legítimo na conversa cotidiana, sem constrangimento e sem apelação.





