Patrimônio histórico: preservação de igrejas deve ser tarefa contínua

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Mike Alves

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Patrimônio histórico: preservação de igrejas deve ser tarefa contínua

Autoridades e especialistas destacam importância de ações permanentes para conservar templos e acervos religiosos

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Pelo menos cem igrejas e edificações religiosas no Brasil apresentam problemas de conservação, de acordo com levantamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Desse total, 72 foram classificadas em condição ruim e outras 28 em estado péssimo.

O levantamento mostra que o estado mais afetado é Minas Gerais, com 28 templos em más condições, seguido de Pernambuco (16) e Bahia (13). Também há registros em Sergipe (9), Rio de Janeiro (5), São Paulo (4), Pará (4), Paraíba (4), Goiás (3) e Mato Grosss (3).

Os números reacendem o debate sobre a necessidade de manutenção contínua para evitar tragédias como a ocorrida na Igreja de São Francisco de Assis, no Pelourinho, em Salvador (BA). Conhecida como “Igreja de Ouro”, parte do forro do templo desabou em 5 de fevereiro, matando a turista Giulia Panchoni Righetto, de 26 anos, e deixando outras cinco pessoas feridas.

Dois dias antes do acidente, o guardião e diretor da Igreja e Convento de São Francisco, frei Pedro Júnior Freitas da Silva, havia enviado ao Iphan um pedido de vistoria, informando sobre “dilatação no forro do teto da nave central”.

O órgão informou que a inspeção estava agendada para um dia após o desabamento e explicou que o documento recebido não caracterizava situação de urgência, assim como não foi feito comunicado à Defesa Civil Municipal ou Corpo de Bombeiros acerca de eventuais riscos.

O episódio expôs tanto a vulnerabilidade das edificações históricas, quanto a necessidade de respostas rápidas e monitoramento contínuo. Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, espaços religiosos precisam de mais apoio.

“São inúmeras igrejas, conventos e espaços religiosos que estão sob a proteção das paróquias, arquidioceses, ordens e congregações. Esses espaços precisam de apoio para serem adequados e conservados para as celebrações, rituais e contemplação do povo brasileiro.”

Nas igrejas classificadas como patrimônio histórico e cultural, é preciso manter viva a autenticidade arquitetônica, respeitando a sua originalidade e, ao mesmo tempo, garantir segurança aos visitantes. No caso ocorrido em Salvador, o forro de igreja foi o ponto de fragilidade que desencadeou a tragédia, mas outros elementos, como telhados, pisos e estruturas de madeira, também exigem atenção durante as inspeções.

Segundo o Ministério da Cultura (MinC), os processos de restauro de um bem tombado seguem protocolos técnicos, com etapas que vão desde fiscalização e diagnóstico até a execução das obras, incluindo a captação de recursos por meio de leis de incentivo e orçamento público.

Além disso, questões como iluminação e acústica também devem ser consideradas. Ao realizar investimentos em painéis de revestimento ou instalação de um forro para o  tratamento acústico para igreja, por exemplo, é importante que os materiais sigam padrões de segurança, como resistência a incêndios e gotejamentos, além de oferecer isolamento térmico.

MPF debate desafios da preservação

A preservação do patrimônio cultural católico também foi tema de debate em evento promovido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em agosto. Estiveram presentes autoridades públicas e religiosas para dialogar sobre estratégias de conservação, entre elas o Ministério Público Federal (MPF).

Na ocasião, a subprocuradora-geral da República, Luiza Frischeisen, destacou que esses bens não pertencem apenas à Igreja, mas a toda a sociedade. Segundo ela, o patrimônio cultural católico representa memórias de várias populações do país e é, também, um marco urbanístico e histórico que, além de igrejas e mosteiros, inclui acervos biográficos e artísticos, imagens sacras, museus e tradições populares.

Frischeisen também ressaltou que a conservação desse legado exige mão de obra especializada e investimentos financeiros. Para ela, alternativas de financiamento, como a criação de fundos, e a definição de ações coordenadas permanentes precisam entrar na pauta.

O coordenador do Grupo de Trabalho Patrimônio Cultural do MPF e procurador da República, Sergio Suiama, também reforçou que a manutenção dos templos depende de uma série de ações que incluem desde combater cupins e infiltrações até projetos duradouros de conservação.

De acordo com ele, a preocupação do órgão é encontrar caminhos que assegurem proteção adequada a esse patrimônio. “É muito importante que pensemos formas de financiamento sustentáveis e de longo prazo para esses bens culturais que são referência para todos os brasileiros, sejam católicos ou não”, pontuou.

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