Ronco tem cura? Como a ciência tem aperfeiçoado tratamentos e devolvido noites silenciosas

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Vanessa Chabatura

Ronco tem cura? Como a ciência tem aperfeiçoado tratamentos e devolvido noites silenciosas

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Desde cedo, o ronco foi visto como um simples “barulho de quem dorme mal”, porém, pesquisas recentes e a experiência clínica mostram que esse som pode ser o primeiro sinal de alterações anatômicas e funcionais que comprometem tanto a qualidade do sono quanto a saúde geral do paciente.

O otorrinolaringologista, especialista em ronco, Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior, da Clínica Garrafa, destaca que o ronco não é apenas um incômodo social, mas pode estar associado à Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono, que por sua vez eleva o risco de hipertensão, arritmias e até acidente vascular cerebral.

Como acontece e quando buscar ajuda

À medida que o ar flui pelas vias aéreas superiores durante o sono, estruturas como o palato mole, a úvula e a base da língua podem vibrar quando o espaço se estreita. Essa obstrução pode ter múltiplas causas anatômicas – desvio de septo nasal, hipertrofia de cornetos, flacidez do palato ou amígdalas aumentadas – e fatores de estilo de vida como obesidade, consumo de álcool e sedativos, e até a posição ao dormir. Dormir de barriga para cima, por exemplo, agrava o problema, pois a gravidade empurra a língua contra a faringe, intensificando o barulho.

Segundo dados da literatura, o ronco habitual afeta de 30% a 50% dos adultos e chega a 60% em pessoas acima de 60 anos; quando associado à Apneia, essa prevalência indica não só o distúrbio do sono como um problema médico de maior gravidade. Por isso, o primeiro passo é uma avaliação detalhada em consultório: o médico do ronco investiga a frequência e intensidade dos episódios, pausas respiratórias observadas pelo parceiro e sintomas diurnos, como sonolência excessiva, dificuldade de concentração e dores de cabeça matinais.

Para confirmar a gravidade do quadro, recorre-se à polissonografia, exame capaz de mapear apneias, hipopneias, dessaturações de oxigênio e fragmentação do sono. Em seguida, métodos como o exame de nasofibrolaringoscopia que permitem identificar pontos de estrangulamento da via aérea – informação crucial para definir a estratégia de tratamento.

Das mudanças de hábito à cirurgia

Em muitos casos, simples ajustes no estilo de vida já trazem melhora significativa:

  • Perda de peso reduz a gordura cervical e alivia a pressão sobre a faringe;
  • Evitar álcool e sedativos antes de dormir mantém o tônus muscular faríngeo;
  • Parar de fumar diminui a inflamação das mucosas;
  • Travesseiros e almofadas que impeçam a posição supina podem reduzir o ronco em 50% dos casos posicionais.

Quando essas medidas não são suficientes, os dispositivos intraorais (que avançam a mandíbula) entram como tratamentos eficazes, especialmente para quem apresenta Apneia leve a moderada.

Já o famoso CPAP – uma “bomba” de ar pressurizado que mantém as vias aéreas abertas, pode ser uma opção para os pacientes que apresentam uma apneia mais grave. No entanto, a adesão prolongada ao CPAP nem sempre é fácil, levando muitos pacientes a buscar soluções definitivas no bloco cirúrgico​.

Procedimentos cirúrgicos: opções e resultados

O Dr. Luiz Herculano aponta duas frentes cirúrgicas principais, escolhidas com base em exames de imagem e endoscópicos:

Septoplastia com Turbinectomia: ao corrigir o desvio do septo e reduzir os cornetos inferiores, amplia-se o fluxo nasal, diminuindo consideravelmente a resistência ao ar.

“Pacientes relatam alívio quase imediato da obstrução e uma melhora significativa do barulho do ronco”, afirma o especialista do sono. O procedimento é realizado em centro cirúrgico, com alta em até 24 horas e retorno às atividades laborativas em cerca de 3 dias, além de melhorar a adaptação ao CPAP em quem precisa continuar usando o aparelho.

Uvulopalatofaringoplastia /Faringoplastia: indicada quando o principal ponto de obstrução está no palato mole e na faringe, objetivando realizar remodelamento das estruturas dessa região, redesenhando a orofaringe para garantir espaço livre e melhorando o fluxo de ar.

Estudos apontam redução maior do que 50% no Índice de Apneia-Hipopneia e melhora significativa do ronco após a cirurgia. O preço dessa eficácia é uma fase inicial de dor na garganta mais intensa nos primeiros dias de pós-operatório, exigindo cuidados como dieta fria ou pastosa, mas os resultados costumam ser duradouros quando o paciente é bem selecionado.

Em ambos os casos, a seleção criteriosa é determinante. Pacientes com obesidade mórbida ou múltiplos sítios de obstrução podem precisar de cirurgias combinadas ou tratamentos ainda mais personalizados.

“Não há solução milagrosa para todo roncador – o segredo é mapear cada ponto de obstrução e escolher a técnica que trará mais benefícios com o menor risco possível”, explica o Dr. Luiz.

Recuperação e cuidados

Após a alta, orientações específicas garantem a melhor cicatrização e reduzem complicações:

  • Controle rigoroso da dor, com analgésicos prescritos;
  • Dieta temporária, iniciando em líquidos frios e avançando para pastas suaves;
  • Repouso moderado, evitando esforços físicos intensos por até três semanas;
  • Higiene nasal (no caso da septoplastia), com lavagens salinas para prevenir crostas e infecções;
  • Retornos agendados para avaliação de cicatrização e, se necessário, polissonografia de controle entre quatro e seis meses após a cirurgia.

Seguir essas recomendações é tão importante quanto o procedimento em si: elas garantem a manutenção dos ganhos respiratórios e minimizam riscos como sangramentos, infecções ou alterações na voz.

No fim das contas, ronco tem cura?

Seja por meio de mudanças de hábito, terapias com aparelhos ou intervenções cirúrgicas, a resposta é sim: o ronco pode ser vencido.

O mais importante é entender que cada caso é único e que o tratamento ideal nasce da combinação de diagnóstico preciso, escolha adequada da técnica e acompanhamento contínuo. O otorrinolaringologista Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior lembra que, “além de resolver o barulho noturno, tratamos a qualidade de vida, a disposição diurna e reduzimos riscos graves à saúde”​.

Se o ronco transforma suas noites em um pesadelo para você ou para quem divide o quarto, vale a pena buscar uma avaliação especializada e descobrir qual caminho – conservador ou cirúrgico – é o mais indicado para recuperar seu sono e sua saúde.

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