Covid nas aldeias: medidas imediatas!

A região central do Brasil registra uma situação extrema, que requer ações urgentes do Poder Público e de toda a sociedade para mitigá-la. Não é a primeira vez que os indígenas no Brasil são vitimados por pandemias. Depois da gripe e do sarampo, que tanto sofrimento levaram aos povos indígenas logo após o descobrimento e a ocupação do Brasil, hoje a contaminação é pelo coronavírus, que chegou às aldeias ameaçando a própria existência desses povos, que registram baixa imunidade, altas taxas de diabetes pelo consumo excessivo de doces e refrigerantes e numerosos casos de alcoolismo – este dois últimos hábitos adquiridos da convivência com os brancos. Somam-se aspectos culturais, como o deslocamento em grupo e a realização de rituais centenários.

Assim são os Xavantes, povo aguerrido, que ocupa as terras da região do Araguaia, onde cultivam suas tradições com muito orgulho e altivez.

Pelo menos 22 mil deles estão nessa região, onde os casos de coronavírus se multiplicam levados pelo homem branco, que entra nas aldeias, ou pelos próprios indígenas, que se deslocam até as cidades para receber recursos do Bolsa Família e Auxílio Emergencial e aproveitam para suas compras. Sem muito conhecimento e orientação quanto aos perigos da pandemia, fazem esse deslocamento em grupos, sem usar máscara e se aglomeram, misturando-se à população das cidades – uma ameaça para eles próprios e para a população como um todo.




O triste resultado está aí: a morte de dezenas de indígenas e a contaminação de outro grande número de pessoas, que lotam os hospitais da região, onde não há mais UTIs. Prefeitos da região relatam o colapso do sistema público de saúde e, a cada dia, são mais e mais casos!

Recentemente, uma das vítimas fatais foi Domingos Mahoro, de 60 anos, cacique da etnia xavante da terra indígena Sangradouro, na região do município General Carneiro, a 449 km de Cuiabá. Líder das causas indígenas, ele esperou por vários dias por uma UTI em Primavera do Leste. Chegou a ser transferido para Cuiabá, mas não resistiu.

E para os indígenas, a morte de um líder ou pessoa idosa coloca em risco até mesmo os saberes ancentrais, que são repassados verbalmente de geração em geração.

Tenho levado este assunto ao Ministério da Saúde, Funai, Casa Civil, Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Secretaria Especial de Saúde Indígena e já pedi uma agenda para falar sobre o assunto com o presidente Jair Bolsonaro. Falei com a ministra Damares (que chegou a falar em genocídio); com o general Braga Neto, da Casa Civil; com o ministro do Supremo Tribunal Federal, o mato-grossense Gilmar Mendes, e tantas outras autoridades tentando encontrar um caminho.

Há várias semanas venho tratando do assunto com a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, presidida pela deputada federal Joênia Wapichana, de Roraima. Segundo ela, o índice de letalidade do covid entre os Xavantes é de 11,7%. Enquanto o índice nacional é de 4,5%.

Nós da bancada federal de Mato Grosso estamos unidos para encontrarmos uma solução. O que se pretende é formar uma força-tarefa para conter o avanço do coronavírus nas aldeias, incluindo a instalação de um hospital de campanha, a realização de exames para detectar o vírus, distribuição de remédios e barreiras para evitar o deslocamento dos indígenas, além de uma campanha de conscientização para os perigos da pandemia.

Acredito que a solução chegue de forma imediata. E assim é preciso. Afinal, o coronavírus não respeita agenda (como bem disse a atriz Lucélia Santos, ativista da causa indígena) e cada dia que passa pode representar a vida ou a morte.

E mais um alerta: a situação nas aldeias Xavantes não é única. Há casos de coronavírus em vários outros povos, não só de Mato Grosso, como do Brasil todo.

Esperamos medidas emergenciais. Não há tempo a perder!

*Wellington Fagundes é senador pelo Partido Liberal de Mato Grosso