Conheça as condições de detenção dos dirigentes da Fifa; Marin é um dos presos




Uma hora de banho de sol, trabalho manual à tarde, três refeições por um valor total de 14 euros por dia: os sete dirigentes da Fifa, detidos em 27 de maio, continuam dormindo na prisão e são submetidos ao regime carcerário habitual de Zurique.

Os cartolas, entre eles o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da CBF, foram presos a pedido da justiça americana, num hotel de luxo da cidade suíça, onde viajaram para assistir ao congresso da entidade.

Eles foram indiciados com suspeitas de participar de um gigantesco esquema de corrupção que movimentou dezenas de milhões de dólares desde os anos 1990. Os sete são alvo de um pedido de extradição para os Estados Unidos.

Além de Marin, estão presos na Suíça Jeffrey Webb (Ilhas Cayman), vice-presidente da Fifa e presidente da Concacaf; Eduardo Li (Costa Rica), membro dos comitês executivos da Fifa e da Concacaf; Julio Rocha (Nicarágua), diretor de desenvolvimento na Fifa; Costas Takkas (Grã-Bretanha), adjunto do gabinete do presidente da Concacaf; Eugenio Figueredo (Uruguai), atual vice-presidente da Fifa; e Rafael Esquivel (Venezuela), membro executivo da Conmebol.

Onde estão os cartolas?

Os sete dirigentes se encontram em prisões diferentes do cantão de Zurique, mantidos em sigilo. De acordo com a imprensa suíça, são localizadas nas cidades de Dielsdorf, Limmattal, Meilen, Pfäffikon, Winterthur e Zurique.

Quais são as condições de detenção?

Os detentos têm direito a tomar banho de sol uma hora por dia, explicou Rebecca de Silva, do departamento de justiça de Zurique. Eles não podem usar o computador pessoal e não têm acesso à internet ou telefone celular. Os advogados podem vê-los durante os horários de visita, e familiares só podem visitá-los mediante a autorização da autoridade que decretou a detenção.

O que eles fazem?

Eles acordam às 7h e tomam o café da manhã. Durante a manhã e a tarde, têm a possibilidade de trabalhar: embalar pacotes, fabricar cabos, colocar etiquetas em mercadoria, ou ajudar na cozinha. Na parte da tarde, o trabalho termina às 16h. Se não trabalham, precisam permanecer na cela. O almoço e o jantar são tomados na cela. O valor total diário da comida é de 15 francos suíços por dia (cerca de 14,3 euros). No cardápio: uma carne ou peixe, carboidratos e às vezes legumes ou frutas enlatados. À noite, podem apagar as luzes quando desejam.

É possível praticar esporte na prisão?

Os detentos podem correr no pátio da prisão, durante a hora de banho de sol. Também podem emprestar livros na biblioteca.

Como são as celas?

As celas têm 12 metros quadrados, com rádio, banheiro, uma mesa e uma cadeira. É possível alugar uma televisão.

Como os cartolas estão vestidos?

Eles podem continuar usando a própria roupa, em virtude da presunção de inocência.

Quanto tempo dura o processo de extradição?

Se o pedido de extradição chegar dentro do prazo de 40 dias, a pessoa continua presa até o fim do processo. A duração do processo não depende apenas da complexidade do caso, mas também do detento. Se esgotar todos os recursos possíveis, o processo pode durar seis meses.

Entenda o caso

Investigações conduzidas pelo FBI, nos EUA, culminaram na prisão de sete dirigentes de peso no futebol em Zurique, na Suíça. Reunidos para a eleição do próximo presidente da entidade, os cartolas foram detidos pela polícia suíça no hotel Baur au Lac. Entre eles, está o ex-presidente da CBF entre 2012 e 2015 e atual vice da entidade, José Maria Marin, que permanece detido na Suíça.

No total, a investigação chegou a 14 nomes. Além dos sete dirigentes que já foram presos, sete foram indiciados. O brasileiro José Lázaro Marguiles, que seria um intermediário nas operações ilegais, é um deles. Outras quatro pessoas, incluindo o empresário José Hawilla, do grupo Traffic, são réus confessos no esquema. Dessas 18 pessoas, 11, entre elas Marin, foram banidas pela Fifa de quaisquer atividades ligadas ao futebol.

As acusações são de extorsão, fraude, conspiração e lavagem de dinheiro para acordos em torneios como as Eliminatórias, Copa América, Libertadores e Copa do Brasil. O esquema dura, pelo menos, 20 anos e movimentou mais de US$ 150 milhões (R$ 476 milhões) até agora. O valor pode ser muito maior.

Com a prisão dos cartolas e as notícias sobre o andamento das investigações, a pressão sobre a Fifa só aumentou. Diante deste cenário, Joseph Blatter, presidente que havia sido reeleito ao seu quinto mandato no dia 29 de maio, renunciou ao cargo. O secretário-geral da entidade e braço-direito do suíço, Jérôme Valcke também está em situação delicada pela suspeita de participar de pagamento de propina.

O escândalo respingou até mesmo no ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que deixou o comando da confederação em 2012. No Brasil, a Polícia Federal pediu o indiciamento do cartola por quatro crimes (lavagem de dinheiro, evasão de divisas, falsidade ideológica e falsificação de documentos público). Entre 2009 e 2012, Teixeira teria movimentado R$ 464,5 milhões de suas contas bancárias, o que chamou a atenção das autoridades.

Como funcionava o esquema

Empresas de marketing esportivo subornavam dirigentes para ganhar apoio e colocar sua marca nos eventos da Fifa, Conmebol, CBF e outras entidades. Foi assim que Marin recebeu cerca de R$ 2 milhões por ano da empresa Traffic, por direitos de transmissão da Copa do Brasil, como propina, de acordo com as investigações. Marin também está envolvido em acusações de suborno de edições da Copa América até 2023.

Nem o contrato da CBF com a Nike escapou do FBI. A acusação é de pagamento de suborno em relação ao contrato da principal patrocinadora da Seleção Brasileira, que vem desde 1996. “O futebol é um belo jogo. Mas foi sequestrado. A vítima é o futebol. Essas pessoas conseguiram muito dinheiro graças ao amor que esse esporte desperta”, disse o diretor do FBI, James Comey. “Estamos dando um cartão vermelho para a Fifa”, completou Richard Webber, da Receita Federal americana.