Alimentos saudáveis são preparados com produtos da biodiversidade

Produtoras lideram empreendimentos que comercializam produtos da agricultura familiar

Maria Luzinete lidera associação de mulheres que produzem alimentos de forma agroecológica (Foto: Arquivo pessoal)

“A terra é uma mãe, aquela que ampara seu filho”. É assim que a agricultura familiar Maria Luzinete, de 63 anos, descreve sua relação com a natureza. Moradora do povoado Lagoa da Volta, no município de Porto da Folha, em Sergipe, Netinha, como é conhecida na comunidade, vive do preparo de alimentos feitos com produtos do sertão.

Mãe de três filhos, Netinha sempre se preocupou em preparar alimentos saudáveis com produtos plantados, ali mesmo, na sua terra. Filha de agricultores familiares, desde a infância ela está envolvida com o plantio e o uso de plantas nativas para comer e tratar doenças.

“Toda vida eu gostei de lidar com a terra. Eu continuo na terra, porque é dela que vem o alimento e a diversidade, é da terra que a gente se alimenta”.

Um dos produtos regionais mais utilizados por Netinha e na comunidade é a moringa, que tem alto valor nutricional e medicinal. O chá da folha da moringa, por exemplo, é recomendado para tratamentos de diabetes e colesterol.

“A moringa é muito importante pra vida nossa. Da moringa você aproveita tudo, você pode fazer até macarrão, pode colocar no feijão, a madeira usa pra pesca, as folhas pra alimentação, tanto humana quanto pra animais. Ela é rica, tem vitaminas A, D e potássio”.

A moringa serviu de base da massa do bolo feito por Netinha e selecionado para integrar o Receituário “Saúde, Saberes e Sabores”, compilação de 23 receitas produzidas por mulheres de 20 países da América Latina e Caribe. O receituário foi publicado no ano passado pela FAO, no âmbito da campanha Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos.

O objetivo da publicação é mostrar como as mulheres do mundo rural incorporam em suas práticas habituais a proteção da biodiversidade e a segurança alimentar e nutricional, para suprir necessidades em um contexto regional marcado por índices elevados de desigualdade, pobreza, fome, desnutrição e obesidade infantil.

O receituário também foi organizado como forma de homenagear as mulheres rurais, valorizar a alimentação saudável e promover o consumo de produtos da agricultura familiar.

Netinha aprendeu a receita do bolo de Moringa com a Associação de Mulheres Regatando sua História. O grupo nasceu em 2003 partir de uma reunião de mulheres que atuavam na evangelização, mas foi ampliado para trabalhar no empoderamento de mulheres rurais e na promoção dos produtos da agricultura familiar feitos pelas trabalhadoras.

O envolvimento com a associação revelou outra habilidade de Netinha: o de mobilização e liderança. Netinha fala com orgulho que a inclusão da receita na publicação da campanha, entre outras conquistas, trouxe mais respeito às mulheres da comunidade.

“No começo, o pessoal não acreditava nas mulheres. Muitos homens achavam que as mulheres não tinham pensamento. Era humilhação, discriminação. Hoje, não. Hoje, eles me veem como uma mulher empoderada”.

Ela destaca que o maior desafio para as agricultoras familiares sergipanas é enfrentar a seca. Na estiagem do ano passado, perderam toda a produção. “Passou um tempão sem chover. Colocamos as sementes na terra, mas não teve lavoura, de jeito nenhum”.

Sua memória prova que o tempo de estiagem tem sido cada vez maior na região. Hoje, para plantar e colher ao longo do ano, as agricultoras dependem da água armazenada em barreiras e cisternas construídas com recursos doados de projetos internacionais e da região.

“Antigamente, dava muita água, meu pai plantava até arroz e nunca mais que eu vi isso aqui. A gente tenta fazer de tudo pra buscar alternativas, pra ter reservatório de água, barreira, cisternas, ter um cuidado, reflorestar nas áreas desmatadas”.

Aos 63 anos, Netinha está motivada e busca novas oportunidades para ampliar os negócios. O grupo pretende tomar parte em projetos, firmando parcerias, para melhorar o viveiro de mudas, o minhocário e conseguir um “ecofogão” para as famílias mais carentes, além de estimular jovens da comunidade.

“Graças à associação é que muita gente aqui tem um conhecimento melhor. Tem uns que se destacaram muito bem através da associação. A nossa preocupação é buscar o jovem pra terra, pra agricultura familiar. Temos que dizer pra eles que a terra é um bom lugar pra se viver e pra trabalhar”.

Buffet da agricultura familiar

Nos arredores da capital do Brasil, outra agricultora familiar também se destaca na comunidade por desenvolver receitas com frutos típicos do cerrado. A produtora Juliana Cristina de Souza, moradora da Bacia do Pipiripau, região de Planaltina, em Brasília, se tornou referência no trabalho de extrativismo e na produção de alimentos típicos.

Juliana começou seu trabalho como instrutora no Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), onde ensinava a outras mulheres o extrativismo de produtos do cerrado. Depois de adquirir sua propriedade rural, se tornou empreendedora e se destaca na região com a realização de buffet e coffee break com produtos da agricultura familiar.

Uma das receitas trabalhadas por Juliana é o bolo de banana com Jatobá, que também foi incluída no receituário da ONU. “Essa receita comecei a desenvolver pra aumentar a nossa renda. Ela começou a entrar no nosso coffee break, as pessoas gostaram muito, aí foi quando a FAO chamou a gente pra colocar no livro. Nós passamos por uma seleção de várias pessoas, várias empresas”, conta Juliana.

A empreendedora Juliana de Souza trabalha com extrativismo de produtos do cerrado (Foto: Arquivo pessoal)

A produtora se orgulha e comemora o retorno do concurso que foi muito positivo. O bolo se tornou um dos produtos mais populares nas feiras em que participa. “Ganhamos mais credibilidade com os nossos clientes, algumas pessoas viram nosso trabalho, acharam interessante e quiseram conhecer depois de ver as nossas receitas no livro. Foi bem bacana, tem trazido resultado até hoje, a nossa participação. Não foi só momentânea”.

A receita homenageada é feita com seis bananas, três colheres de farinha de jatobá, dois copos de farinha de trigo, fermento em pó, meio copo de azeite, meio copo de água, um copo de açúcar mascavo, uma pitada de sal, canela e nós moscada.

No meio rural, a farinha de jatobá é base para receitas de pães, biscoitos, pastéis, doces e sorvetes. A farinha é extraída da polpa do fruto já maduro e pode ser consumida de forma pura, batida com leite ou vitaminas de frutas.

Rico em nutrientes como o ferro e fibras, o jatobá também serve para fins medicinais, principalmente para pessoas com anemia e diabéticos. A casca do fruto é aproveitada para chás e a seiva da árvore tem propriedades curativas para diversas enfermidades, incluindo problemas pulmonares.

Juliana também trabalha com cajuzinhos do cerrado, molhos agridoce feitos de cagaita, doces de araticum, de pequi, além de tortas, bolos e pães com castanhas de baru, entre outros frutos nativos da região. A produção é toda artesanal, feita por ela, o filho, o esposo e mais duas mulheres da comunidade.

Com o rendimento, a família já conseguiu construir uma cozinha industrial na propriedade, mas ainda enfrenta dificuldades para adaptar a produção aos critérios de registro dos produtos. “O desafio maior que a gente enfrenta é a burocracia. Eu preciso registrar produto por produto. E pra você construir uma agroindústria com frutos do cerrado, por exemplo, não posso produzir panificação e molhos agridoces. Tenho que escolher um dos produtos”.

A credibilidade do trabalho está sendo conquistada boca a boca, pela internet e pela divulgação em eventos e feiras, onde os produtos são disponibilizados para degustação. Mesmo com os desafios, Juliana conta que tem se voltado cada vez mais para a terra e seus benefícios.

“Apesar do trabalho árduo, o fato de não precisar mais trabalhar fora tem nos trazido qualidade de vida. Antes desse trabalho na área rural, eu tinha que trabalhar fora pra trazer renda pra casa. E meu esposo era motorista particular e hoje só trabalha na área da nossa propriedade”.

Juliana quer buscar investimentos para avançar no projeto do buffet da agricultura familiar e sonha em trocar experiências com outras propriedades nacionais e até internacionais que trabalham com extrativismo.

Agentes de mudança

O receituário da FAO destaca que a produção de alimentos com produtos da biodiversidade local, priorizando processos agroecológicos e ingredientes saudáveis, tem as mulheres como principais agentes e que a experiência testemunha o conhecimento tradicional de conservação e uso sustentável dos recursos naturais passado por gerações.

As técnicas usadas por elas durante a semeadura, cultivo, colheita e proteção das sementes tem permitido assegurar a qualidade e o equilíbrio dos padrões alimentares de suas famílias e das comunidades onde vivem.

O trabalho contribui ainda para um cultivo limpo, integral e resiliente para o desenvolvimento sustentável e a chamada agricultura inteligente para o clima. As mulheres rurais plantam vegetais nativos em seus quintais e observam com muita dedicação como as plantas se relacionam com o solo, os insetos, as doenças e as mudanças climáticas.

Ecochefs

E no meio urbano as chefs de cozinha também se destacam no trabalho de preservação da biodiversidade. Para a chef de cozinha Teresa Corção, presidente do Instituto Maniva, que reúne ecochefs interessados em transformar a realidade socioambiental e promover os pequenos produtores, as mulheres rurais são imprescindíveis no estímulo ao plantio, produção e processamento de alimentos da biodiversidade.

“A natureza provê o alimento, a biodiversidade. As comunidades descobriram como processar esse alimento. Só que para virar comida, precisa passar por um outro saber, que é o saber cozinhar. É essa comida que faz com que aquele produto permaneça importante naquele sistema. Então, a receita é fundamental para manutenção da biodiversidade”, explica a chef.

Bolo de moringa, produzido no interior do Sergipe,  está no Receituário Saúde, Saberes e Sabores (Foto:Arquivo pessoal)

Teresa conta que a relação com agricultoras familiares aumentou seu interesse nas receitas regionais, que têm fórmulas centenárias, passadas de geração em geração. E as chefs do meio rural também têm se interessado pelas novidades da cozinha urbana, como as receitas veganas e vegetarianas.

“Existe uma troca muito interessante entre as chefs urbanas e rurais. Poderia se criar uma rede mesmo, juntando essas mulheres com essas duas características. Pra mim, foi muito enriquecedor conhecê-las, porque eu vi que elas tinham muito conhecimento”.

Teresa, no entanto, lamenta as muitas dificuldades enfrentadas pelas mulheres rurais. Apesar de terem histórias e talentos diversos,  vivenciam os mesmos desafios, como a sobrecarga de trabalho,  machismo, preconceito,  solidão e  invisibilidade.

“Essas mulheres são incríveis, mas tem muita coisa a ser feita para que a população tenha consciência da sua importância. Ainda é uma população invisível”, comenta Teresa.